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Gita pequeno com 18 Capítulos e 903 páginas
Gita Grande com 18 Capítulos e 903 páginas
Montando o cenário Os colóquios entre
eles _ um dos mais grandiosos diálogos filosóficos e religiosos que o homem
conhece _ aconteceram pouco antes do início de uma guerra, um grande conflito
fratricida entre os cem filhos de Dhrtarãstra e, do lado oposto, seus primos,
os Pãndavas, ou filhos de Pãndu. Dhrtarãstra e
Pãndu, irmãos nascidos na dinastia Kuru, eram descendentes do rei Bharata, um
antigo goveranante da terra, do qual provém o nome Mahãbhãrata. Porque
Dhrtarãstra, o irmão mais velho, nascera cego, o trono que normalmente seria
seu foi transferido para seu irmão mais novo, Pãndu. Quando Pãndu morreu
numa idade precoce, seus cinco filhos _ Yudhistira, Bhima, Arjuna, Nakula e
Sahadeva _ ficaram sob os cuidados de Dhrtarãstra, que, de fato, tornou-se
interinamente o rei. Assim, os filhos de Dhrtarãstra e os de Pãndu cresceram na
mesma casa real. Ambos os grupos foram treinados nas artes militares pelo
proficiente Drona e aconselhados pelo venerável “avô do clã, Bhisma. Entretanto, os
filhos de Drtarãstra, especialmente o mais velho, Duryodhana, odiavam e
invejavam os Pãndavas. E o cego e influenciável Dhrtarãstra queria que seus
próprios filhos, e não os de Pãndu, herdassem o reino. Ora, o Senhor
Krishna não era um homem comum, mas a própria Divindade Suprema, que havia
descido à terra e desempenhava a função de príncipe numa dinastia
contemporânea. Neste papel, Ele também era sobrinho da esposa de Pãndu, Kunti,
ou Prthã, a mãe dos Pãndavas. Assim, quer como parente, quer como o eterno
defensor da religião, Krishna favorecia e protegia os virtuosos filhos de
Pãndu. Finalmente, porém,
o astuto Duryodhana desafiou os Pãndavas a participarem de um jogo. Durante
aquela competição fatídica, Duryodhana e seus irmãos apossaram-se de Draupadi,
a casta e devotada esposa dos Pãndavas, e insultuosamente tentaram despi-la
diante de toda a assembléia de príncipes e reis. A intervenção divina de
Krishna salvou-a, mas o jogo, que fora fraudulento, despojou os Pãndavas de seu
reino e forçou-os a viver treze anos no exílio. Ao voltarem do
exílio, os Pãndavas, recorrendo a seus direitos, exigiram que Duryodhana lhes
devolvesse o reino, mas ele recusou-se peremptoriamente a atender a esta ordem.
Sendo eles príncipes cujo dever era servir na administração pública, os cinco
Pãndavas reduziram sua exigência, pedindo para ficarem apenas com cinco
aldeias. Mas Duryodhana arrogantemente respondeu que não lhes cederia nem mesmo
um punhado de terra onde conseguissem espetar um alfinete. Todavia, à medida
que os príncipes do mundo se dividiam, alguns aliando-se aos filhos de
Dhrtarãstra, outros tomando o partido dos Pãndavas, o próprio Krishna aceitou
ser o mensageiro dos filhos de Pãndu e foi à corte de Dhrtarãstra pleitear a
paz. Depois que suas propostas foram recusadas, a guerra tornou-se certa. Deste modo. Krishna
tornou-se o quadrigário de Arjuna, incumbindo-Se de dirigir a quadriga do
famoso arqueiro. Isto nos leva ao ponto em que começa o Bhagavad-gitã, com os dois
exércitos enfileirados, prontos para o combate, e Dhrtarãstra perguntando
ansiosamente a seu secretário Sanjaya: “Que fizeram eles ? “ Esta tradução,
portanto, e o comentário que a acompanha propõem-se a encaminhar o leitor a
Krishna, e não a afasta-lo dEle. Neste aspecto, o O Bhagavad-gitã Como Ele É é
bastante singular. Também, esta é necessariamente a única tradução que apresenta
a verdadeira essência desta grande escritura. Por ser baseado no
O Bhagavad-gitã Como Ele É, nosso movimento da consciência de Krishna é
genuíno, historicamente autorizado, natural e transcendental. Pouco a pouco,
ele está se tornando o movimento mais popular do mundo inteiro, em especial
entre a geração mais jovem. Também para a geração mais velha, está se tornando
cada vez mais interessante. Pessoas mais idosas estão se interessando mais,
tanto que os pais e avós de meus discípulos estão nos encorajando, tornando-se
membros vitalícios de nossa grande sociedade, a Sociedade Internacional da
Consciência de Krishna. Em Los Angeles, muito pais e mães vinham ver-me para
expressar seus sentimentos de gratidão por eu liderar o movimento da
Consciência de Krishna em todo o mundo. Alguns deles disseram que os americanos
eram muito afortunados por eu ter iniciado nos Estados Unidos o movimento da
consciência de Krishna. Mas na verdade o pai original deste movimento é o
próprio Krishna, pois Ele começou há mutíssimo tempo, mas está chegando até a
sociedade humana pela sucessão discipular. Se tenho algum mérito nisto, não o
adquiri pessoalmente, mas graças a meu mestre espiritual eterno, Sua Divina
Graça Om Visnupãda Paramahansa Parivrãjakãcãrya Astottara-sata Sri Srimad
Bhaktisiddhãnta Sarasvati Gosvãmi Mahãrãja Prabhupãda. Nosso único
propósito é apresentar este O Bhagavad-gitã Como Ele É para que o estudante
condicionado possa participar do mesmo propósito pelo qual Krishna desce a este
planeta uma vez a cada dia de Brahma, ou a cada 8.600.000.000 de anos. Este
propósito está declarado no Bhagavad-gitã, e temos de aceita-lo como ele é;
caso contrário, não adianta tentar entender o Bhagavad-gitã e seu orador, o
Senhor Krishna. O Senhor Krishna primeiro falou o Bhagavad-gitã ao deus do Sol
há centenas de milhões de anos. Temos de aceitar este fato e assim entendermos,
baseados na autoridade de Krishna, a importância histórica do Bhagavad-gitã,
sem deturpações. É grande ofensa interpretar o Bhagavad-gitã sem fazer
referência alguma a vontade de Krishna. Para nos salvarmos desta ofensa, temos
de compreender o Senhor como a Suprema Personalidade de Deus, como ele foi
diretamente compreendido por Arjuna, o primeiro discípulo do Senhor Krishna.
Tal maneira de compreender o Bhagavad-gitã é de fato autorizada e traz proveito
para o bem-estar da sociedade humana, capacitando-a a cumprir a missão da vida. Para ler mais ou baixar livros gratis sobre este conhecimento clique aqui
Assim Duryodhana,
com o consentimento de Dhrtarãstra, tramou matar os jovens filhos de Pãndu, e
foi apenas devido à cuidadosa proteção que seu tio Vidura e seu primo, o Senhor
Krishna, lhes deram que os Pãndavas escaparam das muitas investidas feitas
contra suas vidas.
Durante todos esses
incidentes, os Pãndavas sempre foram tolerantes e pacientes. Mas agora a guerra
parecia inevitável.
Os Pãndavas, homens
da maior estatura moral, reconheciam Krishna como a Suprema Personalidade de
Deus, ao passo que os ímpios filhos de Dhrtarãstra não tiveram essa mesma
atitude. No entanto, Krishna estipulou que Sua participação na guerra seria
conforme o desejo dos antagonistas. Como Deus, Ele não lutaria pessoalmente;
mas quem o desejasse, poderia servir-se do exército de Krishna _ e o outro lado
poderia ter o próprio Krishna como conselheiro e ajudante. Duryodhana, o gênio
político, preferiu açambarcar as forças armadas de Krishna, mas os Pãndavas
ficaram ávidos de contar com o prórpio Krishna.
O cenário está
montado, sendo necessária apenas uma breve nota sobre esta tradução e
comentário.
Ao apresentarem o
Bhagavad-gitã, os tradutores têm adotado como padrão geral afastar a pessoa de
Krishna para abrirem espaço para seus próprios conceitos e filosofias. A
história do Mahãbhãrata é tida como mitologia fantasiosa, e Krishna vira um
artifício poético, permitindo então serem apresentadas as idéias de algum gênio
anônimo, ou na melhor das hipóteses Ele se torna uma personagem histórica sem
muita influência.
Mas no que se
refere àquilo que o próprio Gitã transmite, a pessoa Krishna é a meta e a
substância do Bhagavad-gitã.
Os Editores
Originalmente,
escrevi o O Bhagavad-gitã Como Ele É na forma em que está sendo apresentado
agora. Quando este livro foi publicado pela primeira vez, o manuscrito original
foi, infelizmente, reduzido a menos de quatrocentos páginas, sem ilustrações
nem explicações para a maioria dos versos originais do Srimad Bhagavad-gitã. Em
todos os meus outros livros _ Srimad-Bhagavatam, Sri Isopanisad, etc. _ é
seguido o sistema no qual apresento o verso original, sua transliteração
latina, os equivalentes de cada palavra em sânscrito e inglês, traduções e
significados. Isso torna o livro muito autêntico e erudito e deixa o sentido
aflorar naturalmente. Não fiquei muito feliz, portanto, quando tive de reduzir
ao mínimo o meu manuscrito original. Depois, porém, quando houve considerável
interesse pelo Bhagavad-gitã Como Ele É, muitos eruditos e devotos pediram-me
que apresentasse o livro em sua forma original. Portanto, através desta edição
estamos tentando oferecer o manuscrito original deste grande livro de
conhecimento, contendo a explicação completa apresentada pelo paranparã, de
modo a estabelecer mais sólida e progressivamente o movimento da consciência de
Krishna.
Se tenho algum
crédito pessoal neste assunto, é somente porque tentei apresentar o
Bhagavad-gitã Como Ele É, sem nenhuma adulteração. Antes de eu apresentar o O
Bhagavad-gitã Como Ele É, quase todas as edições do Bhagavad-gitã em inglês
foram introduzidas para satisfazer a ambição pessoal de alguém. Mas nossa
intenção, ao apresentarmos o O Bhagavad-gitã Como Ele É, é apresentar a missão
da Suprema Personalidade de Deus, Krishna. Aceitamos como tarefa nossa
apresentar a vontade de Krishna, não a de qualquer especulador mundano, tal
como o político, o filósofo ou o cientista, pois, embora tenham tanto
conhecimento, eles têm pouquíssimo conhecimento acerca de Krishna. Quando
Krishna diz que man-manã bhava mad-bhakto mad-yãji mam namaskuru, etc., nós, ao
contrário dos pretensos eruditos, não dizemos que Krishna e seu espírito
interior são diferentes. Krishna é absoluto,e não há diferença entre o nome de
Krishna, a forma de Krishna, as qualidades de Krishna, os passatempos de
krishna, etc. Esta posição absoluta de Krishna, é difícil de ser entendida por
alguém que, não sendo devoto de Krishna, não está incluído no sistema de
paramparã (sucessão discipular). Em geral, os supostos eruditos, políticos,
filósofos e swãmis, que não têm perfeito conhecimento acerca de Krishna, tentam
banir ou eliminar Krishna quando escrevem comentários sobre o Bhagavad-gitã.
Tais comentários desautorizados sobre o Bhagavad-gitã são conhecidos como
Mãyãvada-bhãsya, e o Senhor Caitanya nos adverte desses homens espúrios. O
Senhor Caitanya diz claramente que alguém que tentar entender o Bhagavad-gitã
do ponto de vista Mãyãvãdi cometerá um grande erro. Por causa desse erro, o
desencaminhado estudante do Bhagavad-gitã decerto se confundirá no processo da
orientação espiritual e não conseguirá voltar ao lar, voltar ao supremo.
Na sociedade
humana, o movimento da consciência de Krishna é essencial, pois oferece a mais
elevada perfeição da vida. O Bhagavad-gitã explica plenamente como isto
acontece. Infelizmente, argumentadores mundanos se aproveitaram do
Bhagavad-gitã para promover suas propensões demoníacas e desorientar as pessoas
no tocante à compreensão correta dos princípios simples da vida. Todos devem
saber como Deus, ou Krishna, é grande, e todos devem saber que a entidade viva
é serva eterna e que, se não servirmos a Krishna, teremos de servir à ilusão
imersos nas diferentes variedades dos três modos da natureza material e assim
vagar perpetuamente dentro do ciclo de nascimentos e mortes; mesmo o
especulador mãyãvãdi que se julga liberado deve submeter-se a este processo.
Este conhecimento constitui uma grande ciência, e todo ser vivo deve procurar
ouvi-lo para o seu próprio bem.
As pessoas em geral,
especialmente nesta era de Kali, estão sob o encanto da energia externa de
Krishna, e pensam que, com a melhora dos confortos materiais, todos serão
felizes. Elas não têm nenhum conhecimento de que a natureza material, ou a
natureza externa, é muito forte, pois todos estão firmemente atados às estritas
leis da natureza material. Em sua posição feliz original, a entidade viva é
parte integrante do Senhor, e portanto sua função natural é prestar serviço
pessoal ao Senhor. Sob o encanto da ilusão, as diferentes formas de entidades
vivas tentar ser felizes buscando satisfazer o gozo dos próprios sentidos, mas
isto nunca as fará felizes. Em vez de satisfazer os próprios sentidos
materiais, a pessoa deve procurar satisfazer os sentidos do Senhor. Esta é a perfeição
máxima da vida. O Senhor quer e exige isto. Deve-se entender este ponto central
do Bhagavad-gitã. Nosso movimento da consciência de Krishna está ensinando ao
mundo inteiro este ponto central, e porque não estamos poluindo o tema do O
Bhagavad-gitã Como Ele É, qualquer pessoa seriamente interessada em
beneficiar-se do estudo do Bhagavad-gitã deve aceitar a ajuda oferecida pelo
movimento da consciência de Krishna, qualificando-se a obter entendimento
prático acerca do Bhagavad-gitã sob a orientação direta do Senhor. Esperamos,
portanto, que as pessoas tirem o maior benefício estudando o O Bhagavad-gitã
Como Ele É, aqui apresentado por nós, e se mesmo uma só pessoa se tornar devoto
puro do senhor, consideraremos nossa tentativa um sucesso.
12 de maio de 1971
Sydney, Austrália
Quando será que
Srila Rupa Gosvãmi Prabhupãda, que dentro deste mundo material aceitou como sua
missão satisfazer o desejo do Senhor Caitanya, dar-me-á refúgio sob seus pés de
lótus ?
Ofereço minhas
respeitosas reverências aos pés de lótus de meu mestre espiritual e aos pés de
todos os vaisnavas. Ofereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de
Srila Rupa Gosvãmi e de seu irmão mais velho Sanãtana Gosvãmi, bem como de
Raghunãtha Dãsa e Raghunãtha Bhatta, Gopãla Bhatta e Srila Jiva Gosvãmi.
Ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Krishna Caitanya e ao Senhor
Nityãnanda, e também a Advaita Ãcãrya, Gadãdhara, Srivãsa e aos demais
associados. Ofereço minhas respeitosas reverências a Srimati Rãdhãrãni e Sri
Krishna, bem como a Suas companheiras Sri Lalitã e Visãkhã.
Ó meu querido
Krishna, és o amigo dos aflitos e a fonte da criação. És o Senhor das gopis e o
amante de Rãdhãrãni. Ofereço-te minhas respeitosas reverências.
Ofereço meus
respeitos a Rãdhãrãni, cuja tonalidade corpórea lembra o ouro derretido e que é
a rainha de Vrndãvana. És filha do rei Vrsabhãnu, e és muito querida do Senhor
Krishna.
Ofereço minhas
respeitosas reverências a todos os devotos vaisnavas do Senhor. Exatamente como
árvores dos desejos, eles podem satisfazer os desejos de todos, e estão cheios
de compaixão pelas almas caídas.
Ofereço minhas
respeitosas reverências a Sri Krishna Caitanya, Prabhu Nityãnanda, Sri Advaita,
Gadãdhara, Srivãsa e a todos os outros que estão na linha devocional.
krishna krishna
hare hare
hare rãma hare rãma
rãma rãma hare hare
O Bhagavad-gitã
também é conhecido como Gitopanisad. É a essência do conhecimento védico e um
dos mais importantes Upanisads da literatura védica. É claro que, em inglês, há
muitos comentários ao Bhagavad-gitã, e pode-se perguntar qual a necessidade de
outro. Esta presente edição pode ser explicada da seguinta maneira.
Recentemente, uma senhora americana pediu-me que lhe recomendasse uma tradução
do Bhagavad-gitã em inglês. É evidente que nos Estados Unidos há muitas edições
do Bhagavad-gitã disponíveis em inglês, porém, ao que me consta não só nos
Estados Unidos, mas também na Índia, nenhuma delas pode a rigor ser chamada de
autorizada porque em cada uma delas o comentador expressa suas próprias
opiniões e não toca no verdadeiro espírito do Bhagavad-gitã.
O espírito do
Bhagavad-gitã é mencionado no próprio Bhagavad-gitã. Por exemplo, se queremos
tomar determinado remédio, temos de seguir as instruções contidas na bula. Não
podemos tomar o remédio conforme nosso próprio capricho ou segundo a instrução
de um amigo. Devemos toma-lo conforme as instruções da bula ou do médico. De
modo semelhante, o Bhagavad-gitã deve ser recebido ou aceito conforme as
instruções de seu próprio orador. O orador do Bhagavad-gitã é o Senhor Krishna.
Em cada página do Bhagavad-gitã, Ele é mencionado como a Suprema Personalidade
de Deus, Bhagavãn. Evidentemente, a palavra bhagavãn às vezes refere-se a
alguma pessoa poderosa ou a algum semideus poderoso, e com certeza aqui
bhagavãn designa o Senhor Sri Krishna como uma grande personalidade, mas ao
mesmo tempo devemos saber que o Senhor Sri Krishna é a Suprema Personalidade de
Deus, como é confirmado por todos os grandes ãcãryas (mestres espirituais),
tais como Sankarãcãrya, Rãmãnujãcãrya, Madhvãcãrya, Nimbãrka Svãmi, Sri
Caitanya Mahãprabhu e muitos outros que são autoridades no conhecimento védico
da Índia. No Bhagavad-gitã, o prórpio Senhor também se estabelece como a
Suprema Personalidade de Deus, e é com esta conotação que O descrevem o Brahma-samhitã
e todos os Purãnas, especialmente o Srimad-Bhãgavatam, conhecido como o
Bhãgavata Purãna (krishnas tu bhagavãn svayam). Portanto, devemos aceitar o
Bhagavad-gitã como ele é transmitido pela própria Personalidade de Deus.
No quarto Capítulo
do Gitã (4.1-3), o Senhor informa a Arjuna que este sistema de yoga, o
Bhagavad-gitã, foi primeiramente falado ao deus do Sol, e o deus do Sol
explicou-o a Manu, e Manu explicou-o a Iksvãku, e assim este sistema de yoga
foi transmitido através da sucessão discipular, um orador após outro. Porém,
com o passar do tempo, ele se perdeu. Em consequência, o Senhor tem de falá –lo
de novo, esta vez a Arjuna no Campo de Batalha de Kuruksetra.
Ele diz a Arjuna
que está lhe contando este segredo supremo porque Arjuna é Seu devoto e seu
amigo. Isto significa que o Bhagavad-gitã é um tratado especialmente destinado
ao devoto do Senhor. Há três classes de transcendentalistas, a saber, o jnãni,
o yogi e o bhakta, ou o impersonalista, o meditador e o devoto. Aqui, o Senhor
diz claramente a Arjuna que está fazendo dele o primeiro recebedor que integra
um novo paramparã (sucessão discipular) porque a sucessão antiga foi
interrompida. Era desejo do Senhor, portanto, estabelecer outro parampãra que
seguisse a mesma linha de pensamento que o deus do Sol transmitira a outros, e
era Seu desejo que este ensinamento voltasse a ser distribuído por Arjuna. Ele
queria que Arjuna se tornasse uma autoridade versada no Bhagavad-gitã. Logo,
vemos que o Bhagavad-gitã é instruído a Arjuna especialmente porque Arjuna era
um devoto do Senhor, um aluno direto de Krishna e seu amigo íntimo. Portanto,
entende melhor o Bhagavad-gitã uma pessoa com qualidades semelhantes às de
Arjuna. Quer dizer, ela deve ser um devoto que cultiva relação direta com o Senhor.
Logo que alguém se torna devoto do senhor, também tem um relacionamento direto
com o Senhor. Este é um assunto muito esmerado, mas em resumo pode-se afirmar
que o devoto mantém com a Suprema Personalidade de Deus uma destas cinco
diferentes relações:
1. Pode-se ser
devoto em estado passivo;
2. Pode-se ser
devoto em estado ativo;
3. Pode-se ser
devoto como amigo
4. Pode-se ser
devoto como pai ou mãe
5. Pode-se ser
devoto como amante conjugal.
Arjuna
relacionava-se com o senhor como amigo. É claro que há um abismo de diferença
entre esta amizade e a amizade encontrada no mundo material. Nem todos têm uma
relação específica com o Senhor, e esta relação é revivida através da perfeição
alcançada com o serviço devocional. Mas no nosso atual estado de vida, não
apenas esquecemo-nos do Senhor Supremo,mas também esquecemo-nos de nossa
relação eterna com o Senhor. Cada ser vivo, dentre os muitos e muitos bilhões e
trilhões de seres vivos, tem eternamente uma relação específica com o Senhor.
Isto se chama svarupa. Pelo processo do serviço devocional, pode-se reviver
esta svarupa, e esta etapa chama-se svarupa-siddhi _ perfeição da nossa posição
constitucional. Logo, Arjuna era um devoto, e seu contato como Senhor Supremo
era em amizade.
Deve-se atentar em como
Arjuna aceitou este Bhagavad-gitã. Seu modo de aceitação é mencionado no Décimo
Capítulo (10.12-14) “ Arjuna disse: És a Suprema Personalidade de Deus, a
morada última, o mais puro, a Verdade Absoluta. És a pessoa original, eterna e
transcendental, o não-nascido, o maior. Todos os grandes sábios, tais como
Nãrada, Asita, Devala e Vyãsa, confirmam esta verdade referente a Ti, e Tu
mesmo acabas de revela-la para mim. Ó Krishna, aceito totalmente como verdade
tudo o que me disseste. Nem os semideuses nem os demônios, ó Senhor, podem
compreender Tua personalidade. “
Após ouvir a
Suprema Personalidade de Deus falar o Bhagavad-gitã, Arjuna aceitou Krishna
como param Brahma, o Brahmam Supremo. Todo ser vivo é Brahman, mas o ser vivo
supremo, ou a Suprema Personalidade de Deus, é o Brahman Supremo. Param dhãma
quer dizer que Ele é o supremo repouso ou a morada de tudo; pavitram quer dizer
que Ele é puro, não manchado pela contaminação material; purusam quer dizer que
Ele é o desfrutador supremo; sasvatam, original; divyam, transcendental;
adi-devam, a Suprema Personalidade de Deus; ajam, o não-nascido; e vibhum, o
maior.
Ora, alguém talvez
pense que, como Krishna era seu amigo, Arjuna dizia-lhe tudo isso para
lisonjeá-lo, porém, só para tirar esta espécie de dúvida das mentes dos
leitores do Bhagavad-gitã, Arjuna legitima estes louvores no verso seguinte
quando diz que Krishna é aceito como a Suprema Personalidade de Deus não por
ele próprio, mas por autoridades como Nãrada, Asita, Devala e Vyãsadeva. Estas
grandes personalidades distribuem o conhecimento védico como o aceitam todos os
ãcãryas. Por isso, Arjuna diz a Krishna que aceita como inteiramente perfeito
tudo o que Ele fala. Sarvam etad rtam manye: “ Aceito como verdadeiro tudo o
que dizes “. Arjuna também diz que a personalidade do Senhor é muito difícil de
entender e que Ele não pode ser conhecido nem mesmo pelos grandes semideuses.
Isto significa que o Senhor não pode ser conhecido mesmo por personalidades
maiores que os seres humanos. Então, como pode um ser humano compreender o
Senhor Sri Krishna sem tornar-se Seu devoto ?
Portanto, o
Bhagavad-gitã deve ser recebido com um espírito de devoção. Ninguém deve ficar
pensando que é igual a Krishna, tampouco deve alguém pensar que Krishna é uma
personalidade comum ou quiçá uma personalidade grandiosa. O Senhor Sri Krishna
é a Suprema Personalidade de Deus. Assim, de acordo com as afirmações do
Bhagavad-gitã ou as declarações de Arjuna, a pessoa que tentava entender o
Bhagavad-gitã, devemos ao menos em teoria aceitar Krishna como a Suprema
Personalidade de Deus, e com este espírito submisso podemos compreender o
Bhagavad-gitã. Quem não lê o Bhagavad-gitã com espírito submisso terá muita
dificuldade de compreender o Bhagavad-gitã, porque ele é um grande mistério.
Exatamente que é o
Bhagavad-gitã ? O Bhagavad-gitã propõe-se a livrar a humanidade da ignorância
própria da existência material. Cada pessoa anda às voltas com tantos
obstáculos, assim como Arjuna tinha diante de si essa dificuldade: ter de lutar
na Batalha de Kuruksetra. Arjuna rendeu-se a Sri Krishna, e em consequência foi
falado este Bhagavad-gitã. Não só Arjuna, mas cada um de nós está cheio de
ansiedades por causa desta existência material. Nossa própria existência está
na atmosfera de não existência. De fato, não estamos destinados a sermos
ameaçados pela não existência. Nossa existência é eterna. Mas de alguma maneira
somos postos em asat. Asat refere-se áquilo que não existe.
Dentre tantos seres
humanos que estão sofrendo, poucos são os que estão realmente perguntando sobre
sua posição, sobre o que eles são, por que estão nesta posição ingrata e assim
por diante. Se a pessoa não despertar para esta posição na qual ela quer saber
o porquê do seu sofrimento, se não se der conta de que, em vez de sofrer,
prefere solucionar todo o sofrimento, então não se deve considera-la um ser
humano perfeito. Alguém é incluído entre os seres humanos quando esta espécie
de indagação surge em sua mente. No Brahma-sutra, esta indagação chama-se
Brahma-jijnãsã. Athãto Brahma-jijnãsã. Toda atividade do ser humano deve ser
considerada um fracasso enquanto ele ainda não tiver perguntado sobre a
natureza do Absoluto. Portanto, aqueles que começam a perguntar por que estão
sofrendo ou de onde vieram e para onde irão após a morte são estudantes que têm
condições de compreender o Bhagavad-gitã. O estudante sincero deve também ter
firme respeito pela Suprema Personalidade de Deus. Eis a espécie de estudante
que Arjuna era.
O Senhor Krishna
advém especificamente para restabelecer o verdadeiro propósito da vida sempre
que o homem se esquece deste propósito. Mesmo então, dentre os muitos e muitos
seres humanos que despertam, talvez haja um que realmente procura compreender
sua posição, e para ele é falado este Bhagavad-gitã. De fato, somos todos
engolidos pelo tigre da ignorância, mas o Senhor tem muita misericórdia das
entidades vivas, especialmente dos seres humanos. Foi por isso que Ele falou o
Bhagavad-gitã, fazendo de Seu amigo Arjuna Seu aluno.
Sendo um
companheiro do Senhor Krishna, Arjuna estava acima de toda a ignorância, mas no
Campo de Batalha de Kuruksetra, arjuna foi posto em ignorância apenas para
perguntar ao Senhor Krishna sobre os problemas da vida de tal maneira que o
Senhor pudesse explica-los, para que as futuras gerações de seres humanos se
beneficiassem e se traçasse o plano da vida. Então, o homem poderia agir de
acordo com estes princípios e aperfeiçoar a missão da vida humana.
O assunto do
Bhagavad-gitã envolve a compreensão de cinco verdades básicas. Em primeiro
lugar, explica-se a ciência de Deus e depois a posição constitucional das
entidades vivas, as jivas. Há o isvara, que significa o controlador, e há as
jivas, as entidades vivas sobre as quais se exerce controle. Se uma entidade
viva diz que não é controlada mas sim, livre, então ela é louca. O ser vivo é
controlado em todos os aspectos, pelo menos na vida condicionada. Assim, no
Bhagavad-gitã, descrevem-se o isvara, o controlador supremo, e as jivas, as
entidades vivas controladas. Também se discutem prakrti (a natureza material) e
o tempo (a duração da existência de todo o Universo ou da manifestação da
natureza material) e karma (atividade). A manifestação cósmica está cheia de
diferentes atividades. Todas as entidades vivas estão ocupadas em diversas
atividades. Através do Bhagavad-gitã, devemos aprender o que é Deus, o que são
as entidades vivas, o que é prakrti, o que é a manifestação cósmica, como ela é
controlada pelo tempo, e quais são as atividades das entidades vivas.
Destes cinco
tópicos básicos, inseridos no Bhagavad-gitã, fica estabelecido que a Divindade
Suprema, ou Krishna, ou Brahman, ou o controlador supremo, ou Paramãtmã _
alguém pode usar o melhor termo que lhe aprouver _ é o maior de todos. Os seres
vivos têm as mesmas qualidades do controlador supremo. Por exemplo, o Senhor
controla os assuntos universais da natureza material, como será explicado nos
capítulos posteriores do Bhagavad-gitã. A natureza material não é independente.
Ela age sob a direção do Senhor Supremo. Como o Senhor Krishna diz,
mayãdhyaksena prakrtih suyate sa-carãcaram: “ Esta natureza material funciona
sob Minha direção”. Quando vemos fenômenos maravilhosos acontecendo na natureza
cósmica, devemos saber que, por trás desta manifestação cósmica, há um
controlador. Nada poderia manifestar-se se não houvesse controle. É
infantilidade não levar em conta a presença do controlador. Por exemplo, uma
criança pode achar realmente maravilhoso que um automóvel seja capaz de correr
sem que um cavalo ou outro animal o puxe, mas o homem são conhece a natureza da
engenharia mecânica do automóvel. Ele sempre sabe que por trás da máquina há um
homem, um motorista. De modo semelhante, o Senhor Supremo é o motorista sob
cuja direção tudo funciona. Como veremos nos capítulos ulteriores, o fato é que
as jivas, ou entidades vivas, foram aceitas pelo Senhor como Suas partes
integrantes. Uma partícula de ouro também é ouro, uma gota dágua do oceano
também é salgada, e de igual modo, nós, as entidades vivas, sendo partes
integrantes do controlador supremo, isvara, ou Bhagavãn, Senhor Sri Krishna,
temos em quantidade diminuta todas as qualidades do Senhor Supremo porque somos
isvaras diminutos, isvaras subordinados. Estamos tentando controlar o espaço ou
os planetas, e temos esta tendência, controlar, porque ela existe em Krishna.
Porém, embora tenhamos por tendência assenhorearmo-nos da natureza material, é
bom sabermos que não somos o controlador supremo. Isto é explicado no
Bhagavad-gitã.
Que é natureza
material ? Esta também é explicada no Gitã como prakrti inferior, natureza
inferior. Menciona-se que a entidade viva é prakrti superior. A prakrti,
inferior ou superior, está sempre sob controle. A prakrti é feminina, e é
controlada pelo Senhor, assim como as atividades da esposa são controladas pelo
marido. A prakrti é sempre subordinada, predominada pelo Senhor, que predomina.
As entidades vivas e a natureza material são predominadas, e estão controladas
pelo Senhor Supremo. Segundo o Gitã, as entidades vivas, embora partes
integrantes do Senhor Supremo, devem ser consideradas prakrti. Isto é
claramente mencionado no Sétimo Capítulo do Bhagavad-gitã. Apareyam itas tv
anyãm prakrtim viddhi me param/ jiva-bhutãm: “Esta natureza material é Minha
prakrti inferior, porém, além desta há outra prakrti _ jiva-bhutãm, a entidade
viva”.
A própria natureza
material é constituída por três qualidades: o modo da bondade, o modo da paixão
e o modo da ignorância. Acima desses modos, há o tempo eterno, e através da
combinação desses modos da natureza e sob o controle e jurisdição do tempo
eterno, há atividades, que são chamadas karma. Essas atividades vêm sendo
realizadas desde tempos imemoriais, e sofremos ou gozamos os frutos de nossas
atividades. Por exemplo, suponhamos que eu seja um homem de negócios e tenha
usado minha inteligência trabalhando arduamente para conseguir um grande saldo
bancário. Então, sou o desfrutador. Mas digamos então que eu tenha perdido todo
o dinheiro nos negócios; então, sou o sofredor. Do mesmo modo, em cada esfera
da vida gozamos ou sofremos os resultados de nosso trabalho. Isto se chama
karma.
Isvara ( o Senhor
Supremo), jiva ( a entidade viva), prakrti ( a natureza), kala ( o tempo
eterno), e karma (atividades) são todos explicados no Bhagavad-gitã. Destes
cinco, o Senhor, as entidades vivas, a natureza material e o tempo são eternos.
A manifestação de prakrti pode ser temporária, mas não é falsa. Alguns
filósofos dizem que a manifestação da natureza é falsa, porém, segundo a
filosofia do Bhagavad-gitã ou segundo a filosofia dos vaisnavas, tal opinião
não é aceitável. A manifestação do mundo não é aceita como falsa; é aceita como
real, embora temporária. É comparada a uma nuvem que se move no céu, ou a vinda
da estação das chuvas, que serve para nutrir os grãos. Logo que termina a
estação das chuvas e logo que a nuvem se vai, todas as plantas que brotaram
após a semeadura e foram nutridas pela chuva definham. Do mesmo modo, esta
manifestação material acontece num certo intervalo, permanece por algum tempo e
então desaparece. Eis como funciona a prakrti. Mas este ciclo ocorre
eternamente. Portanto, a prakrti é eterna; ela não é falsa. O Senhor refere-se
a ela como “Minha prakrti”. Esta natureza material é a energia separada do
Senhor Supremo, e de maneira semelhante, as entidades vivas também são energia
do Senhor Supremo, embora não sejam separadas, mas eternamente relacionadas com
Ele. Então o Senhor, a entidade viva, a natureza material e o tempo estão todos
inter-relacionados e são eternos. Entretanto, o outro item, karma, não é eterno.
De fato, os efeitos do karma podem ser bem antigos. Desde tempos imemoriais,
estamos sofrendo ou desfrutando os resultados de nossas atividades, mas podemos
modificar os resultados de nosso karma, ou de nossas atividades, e esta
modificação depende da perfeição de nosso conhecimento. Estamos ocupados em
várias atividades. Evidentemente, não sabemos que espécie de atividades devemos
adotar para aliviarmo-nos das ações e reações de todas essas atividades, mas
também se explica isto no Bhagavad-gitã.
Em sua posição,
isvara, o Senhor Supremo, é a consciência suprema. As jivas, ou entidades
vivas, sendo partes integrantes do Senhor Supremo, também são conscientes. A
entidade viva e a natureza material são explicadas como prakrti, a energia do
Senhor Supremo, mas uma das duas, a jiva é consciente. A outra prakrti não é
consciente. Esta é a diferença. Logo, a jiva-prakrti é chamada superior porque
a jiva tem consciência semelhante a do Senhor. Entretanto, a consciência do
Senhor é Suprema, e ninguém deve ficar argumentando que a jiva, a entidade
viva, também é supremamente consciente. Em fase alguma de sua perfeição pode o
ser vivo ser supremamente consciente, e a teoria segundo a qual ele pode
atingir este ponto é uma teoria desorientadora. Ele pode ser consciente, mas
não é perfeita ou supremamente consciente.
A distinção entre a
jiva e o isvara será explicada no Décimo Terceiro Capítulo do Bhagavad-gitã. O
Senhor é ksetra-jna, consciente, como também o é o ser vivo, mas o ser vivo é
consciente de seu corpo particular, ao passo que o Senhor é consciente de todos
os corpos. Porque vive no coração de cada ser vivo, o Senhor é consciente das
atividades psíquicas das jivas específicas. É bom não nos esquecermos disto.
Explica-se também que o Paramãtmã, A Suprema Personalidade de Deus, vive nos
corações de todos como isvara, o controlador, e que Ele dá instruções para a
entidade viva agir de modo a satisfazer seus anseios. A entidade viva
esquece-se dos atos que deve executar. Em primeiro lugar, ela resolve agir de
certa maneira, e então enreda-se nas ações e reações de suas atividades
passadas. Essas atividades podem mudar quando o ser vivo está no modo da
bondade, em seu juízo perfeito, e compreende que espécie de atividades deve
adotar. Se tomar esta atitude, então todas as ações e reações de suas
atividades passadas poderão ser modificadas. Consequentemente, o karma não é
eterno. Por isso, afirmamos que, dos cinco itens (isvara, jiva, prakrti, tempo
e karma), quatro são eternos, mas o karma não é eterno.
O supremo isvara
consciente assemelha-se à entidade viva no seguinte aspecto: tanto a
consciência do Senhor quanto a da entidade viva são transcendentais. Não se
deve julgar que a consciência surge através da associação com a matéria. Esta
idéia é errada. A teoria segundo a qual a consciência desenvolve-se sob certas
circunstâncias de combinação material não é aceita no Bhagavad-gitã. A
consciência pode mostrar-se deturpada ao ficar encoberta por circunstâncias
materiais, assim como a luz refletida através do vidro colorido aparentemente
assume certa cor, mas a consciência do Senhor não é afetada materialmente. O
Senhor Krishna diz: mayãdhyaksena prakrtih. Quando Ele vem ao universo
material, Sua consciência não é afetada materialmente. Se ela sofresse essa influência,
Ele não teria condições de falar de assuntos transcendentais como aqueles que
Ele transmite no Bhagavad-gitã. Não pode dizer nada sobre o mundo
transcendental quem não está livre da consciência materialmente contaminada.
Portanto, o Senhor não está sob a contaminação material. Todavia, no momento
atual, nossa consciência está materialmente contaminada. O Bhagavad-gitã ensina
que temos de purificar esta consciência materialmente contaminada. Em
consciência pura, nossas ações serão ajustadas à vontade do isvara, e isso nos
fará felizes. Não é que tenhamos de parar com todas as atividades. Ao
contrário, nossas atividades devem ser purificadas, e atividades purificadas
chaman-se bhakti. Atividades em bhakti parecem atividades comuns, mas a
diferença é que elas não são contaminadas. Uma pessoa ignorante vai ver o
devoto agindo ou trabalhando como um homem comum, mas essa pessoa que tem um
pobre fundo de conhecimento não sabe que as atividades do devoto ou as do
Senhor não são contamindas pela consciência ou pela matéria impuras. Elas são
transcendentais aos três modos da natureza. Devemos saber, porém, que no ponto
a que chegamos nossa consciência está contaminada.
Quando estamos
materialmente contaminados, podemos chamar-nos condicionados. A consciência falsa
manifesta-se naquele que se julga um produto da natureza material. Chama-se
isto falso ego. Quem está absorto em pensar em conceitos corpórios não pode
compreender sua situação. O Bhagavad-gitã foi falado pra que todos possam
livrar-se da concepção de vida corpórea, e Arjuna colocou-se nesta posição para
que o Senhor lhe fornecesse esta informação. Devemos nos livrar da concepção de
vida corpórea; esta é a atividade preliminar para quem deseja ser
transcendentalista. A pessoa que quer tornar-se livre, que quer tornar-se
liberada, deve primeiramente aprender que ela não é este corpo material. Mukti,
ou liberação, significa estar livre da consciência material. Também no
Srimad-Bhãgavatam é dada a definição de liberação. Muktir hitvãnyathã-rupam
svarupena vyavasthitih: mukti significa que a consciência contaminada
liberta-se deste mundo e situações materiais, tornando-se consciência pura.
Todas as instruções do Bhagavad-gitã servem para despertar esta consciência
pura, e por isso encontramos na última etapa das instruções do Gitã Krishna
perguntando a Arjuna se agora ele está em consciência purificada. Consciência
purificada significa agir de acordo com as instruções do Senhor. Nisto se
resume a Consciência purificada. A consciência já existe porque somos partes
integrantes do Senhor, mas temos a tendência de nos deixarmos afetar pelos
modos inferiores. Mas o Senhor, sendo o supremo, nunca é afetado. Esta é a
diferença entre o Senhor Supremo e as pequenas almas individuais.
Que é esta
consciência ? Esta consciência é “Eu sou”. Então, que sou eu ? Em consciência
contaminada, “Eu sou” quer dizer “Eu sou o senhor de tudo o que me circunda. Eu
sou o desfrutador”. O mundo prossegue porque cada ser vivo julga ser o senhor e
criador do mundo material. A consciência material tem duas divisões psíquicas.
Uma delas defende a idéia de que eu sou o criador, e segundo a outra eu sou o
desfrutador. Mas na verdade, o Senhor Supremo é tanto o criador quanto o
desfrutador, e a entidade viva, sendo parte integrante do Senhor Supremo, não é
o criador nem o desfrutador, mas um cooperador. Ela foi criada para ser
desfrutada. Por exemplo, uma peça de uma máquina coopera com a máquina toda;
uma parte do corpo coopera com todo o corpo. As mãos, pernas, olhos, e assim
por diante são todos partes do corpo, mas na verdade não são os desfrutadores.
O desfrutador é o estômago. As pernas se locomovem, as mãos fornecem o
alimento, os dentes mastigam, e todas as partes do corpo estão ocupadas em
satisfazer o estômago porque o estômago é o principal fator que nutre a
organização do corpo. Portanto, tudo é dado ao estômago. Nutre-se uma árvore
regando-lhe a raiz, e nutre-se o corpo alimentando o estômago, pois para que o
corpo se mantenha em estado saudável, as partes do corpo devem cooperar para alimentar
o estômago. De modo semelhante, o Senhor Supremo é o desfrutador e o criador, e
nós, como seres vivos subordinados, devemos procurar colaborar em satisfaze-LO.
Esta cooperação acabará nos ajudando, assim como o alimento recebido pelo
estômago ajudará todas as outras partes do corpo. Se os dedos da mão pensarem
que devem tomar o alimento em vez de dá-lo ao estômago, então malograr-se-ão. A
figura central da criação e do desfrute é o Senhor Supremo, e as entidades
vivas cooperam com Ele. Cooperando, elas desfrutam. A relação é também como a
do amo e do servo. Se o amo está plenamente satisfeito, então o servo também
fica satisfeito. Da mesma maneira, deve-se procurar satisfazer o Senhor
Supremo, embora nas entidades vivas também exista a tendência de tornar-se o
criador e a tendência de desfrutar o mundo material, porque estas tendências
existem no Senhor Supremo, que criou o mundo cósmico manifesto.
Verificaremos,
portanto, neste Bhagavad-gitã que o todo completo é formado pelo controlador
supremo, pelas entidades vivas controladas, pela manifestação cósmica, pelo
tempo eterno e pelo karma, ou atividades, todos os quais são explicados neste
texto. Tomados em conjunto, todos eles formam o todo completo, e o todo
completo é chamado de Suprema Verdade Absoluta. O todo completo e a Verdade
Absoluta completa São a personalidade de Deus completa, Sri Krishna. Todas as
manifestações devem-se a Suas diferentes energias. Ele é o todo completo.
Mais ainda,
explica-se no Gitã que o Brahmam impessoal também está subordinado à Pessoa
Suprema completa (brahmano hi pratisthãham). O Brahma-sutra explica mais
explicitamente que o Brahmam é como os raios do sol. O Brahmam impessoal são os
raios brilhantes da Suprema Personalidade de Deus. O Brahmam impessoal caracteriza
uma etapa na qual se compreende parcialmente o todo absoluto, e isto também se
dá com aqueles que atingem a concepção do Paramãtmã. No Décimo Quinto Capítulo,
ver-se-á que a Suprema Personalidade de Deus, Purusottama, está acima tanto do
Brahmam impessoal quanto da compreensão parcial acerca do Paramãtmã. A Suprema
Personalidade de Deus é chamada sac-cid-ãnanda-vigraha. Eis como começa o
Brahma-samhitã: isvarah paramah krishnah sac-cid-ãnanda-vigrahah/ anãdir
govindah sarva-kãrana-kãranam.
“
Govinda,
Krishna, é a causa de todas as causas. Ele é a causa primordial, e Ele é a
própria forma de eternidade, conhecimento e bem-aventurança. “ A compreensão
acerca do Brahmam impessoal é a percepção de seu aspecto sat (eternidade). A
percepção Paramãtmã é a compreensão acerca de sat-cit ( conhecimento eterno).
Mas entender a Personalidade de Deus, Krishna, é entender todas as
características transcendentais: sat, cit e ãnanda (eternidade, conhecimento e
bem-aventurança) na vigraha (forma) completa.
Pessoas menos inteligentes
consideram a Verdade Suprema como impessoal, mas Ele é uma pessoa
transcendental, e confirmam isto todos os textos védicos. Nityo nityãnãm
cetanas cetanãnãm. (katha Upanisad 2.2.13) Assim como todos nós somos seres
vivos individuais e temos nossa individualidade, a Suprema Verdade Absoluta é
também, em última análise, uma pessoa, e compreender a Personalidade de Deus é
compreender todas as características transcendentais que existem em Sua forma
completa. O todo completo não é amorfo. Se Ele é amorfo ou se lhe falta algo,
então, Ele não pode ser o todo completo. O todo completo deve ter tudo o que
existe dentro e fora de nossa experiência, caso contrário, ele não poderia ser
completo.
O todo completo, a
Personalidade de Deus, tem potências imensas (parãsya saktir vividhaiva
sruyate). No Bhagavad-gitã , também se explica como Krishna age através de
diferentes potências. Este mundo fenomenal ou o mundo material em que nos
encontramos também já é em si mesmo completo. Isto porque, segundo a filosofia
sãnkhya, os vinte e quatro elementos que compreendem a manifestação temporária
do universo material estão inteiramente ajustados para produzir recursos
completos que são necessários para a manutenção e subsistência deste Universo.
Não há nada impertinente, tampouco falta algo. O tempo de permanência desta
manifestação é fixado pela energia do todo supremo, e expirado o tempo, estas
manifestações temporárias serão aniquiladas, seguindo à risca o perfeito
arranjo estabelecido pelo completo. Existem todas as condições favoráveis para
que as pequenas unidades completas, a saber, as entidades vivas, possam
entender o completo, e tudo o que é incompleto é experimentado devido ao
incompleto conhecimento acerca do completo. Por isso, o Bhagavad-gitã contém o
conhecimento completo da sabedoria védica.
Todo o conhecimento
védico é infalível, e os hindus aceitam o conhecimento védico como completo e
infalível. Por exemplo, o esterco da vaca é o excremento de um animal, e de
acordo com o smrti, ou preceito védico, se alguém tocar o excremento de um
animal deverá tomar um banho para purificar-se. Mas nas escrituras védicas o
estrume da vaca é considerado um agente purificador. Alguém talvez considere
isso contraditório, mas é aceito por ser preceito védico, e de fato, aceitando
isso, não se cometerá erro; posteriormente, a ciência moderna provou que o
estrume de vaca contém todas as propriedades anti-sépticas. Logo, o
conhecimento védico é completo por estar acima de quaisquer dúvidas e enganos,
e o Bhagavad-gitã é a essência de todo o conhecimento védico.
O conhecimento
védico não é uma questão de pesquisa. Nosso trabalho de pesquisa é imperfeito
porque estamos pesquisando objetos com sentidos imperfeitos. Temos de aceitar o
conhecimento perfeito que, como se afirma no Bhagavad-gitã, desce através do
paramparã (sucessão discipular). Temos de receber conhecimento da fonte
apropriada, a sucessão discipular começando com o mestre espiritual supremo, o
próprio Senhor, e que é transmitido a uma sucessão de mestres espirituais.
Arjuna, o estudante que recebeu aulas do Senhor Sri Krishna, aceita tudo que
Ele diz, sem contradize-LO. Não é permitido aceitar uma parte do Bhagavad-gitã
e rejeitar outra. Não. Devemos aceitar o Bhagavad-gitã sem interpretações, sem
supressões e sem nossa própria caprichosa participação no assunto. O Gitã deve
ser acolhido como a mais perfeita apresentação do conhecimento védico. O
conhecimento védico é recebido de fontes transcendentais, e as primeiras
palavras foram faladas pelo próprio Senhor. As palavras proferidas pelo Senhor
chamam-se apauruseya, ou seja, elas são diferentes das palavras pronunciadas
por uma pessoa mundana que está infectada de quatro defeitos. A pessoa mundana
(1) na certa comete erros; (2) está invarivelmente iludida; (3) tem a tendência
de enganar os outros; e (4) é limitada por sentidos imperfeitos. Com Essas
quatro imperfeições, não é possível transmitir informação perfeita referente ao
conhecimento onipenetrante
O conhecimento
védico não é transmitido por essas entidades vivas deficientes. Ele foi
revelado no coração de Brahmã, a primeira criatura, e Brahmã, por sua vez,
disseminou este conhecimento entre seus filhos e discípulos, como ele o recebeu
originalmente do Senhor. O senhor é purnam, perfeitíssimo, e não há possibilidade
alguma de Ele sujeitar-se às leis da natureza material. Todos, portanto, devem
ser bastante inteligentes para saber que o Senhor é o único proprietário de
tudo no Universo e que Ele é o criador original, o criador de Brahmã. No Décimo
Primeiro Capítulo, o Senhor é tratado de prapitãmaha porque Brahmã é chamado de
pitãmaha, o avô, sendo Ele o criador do avô. Logo, ninguém deve alegar ser
proprietário de algo; cada um deve aceitar somente aquilo que o Senhor
estipulou como a cota para a sua manutenção.
São muitos os
exemplos próprios para mostrarem como devemos utilizar tudo aquilo que o senhor
designou para nós. No Bhagavad-gitã também se explica isto. No início, Arjuna
decidiu que não deveria lutar na Batalha de Kuruksetra. Ele mesmo tomou a
decisão. Arjuna disse ao Senhor que não lhe era possível desfrutar o reino após
matar seus próprios parentes. Esta decisão baseava-se no corpo porque ele
pensava que era o corpo e que suas relações ou expansões corpóreas eram seus
irmãos, sobrinhos, cunhados, avós e assim por diante. Portanto, ele queria
satisfazer suas exigências corpóreas. O Bhagavad-gitã foi falado pelo Senhor só
para mudar esta opinião, e no final, quando diz, karisye vacanam tava: “Agirei
segundo Tua palavra ´, Arjuna decide lutar sob as instruções do Senhor.
Neste mundo, os
homens não estão designados para brigar como cães e gatos. Os homens devem ter
suficiente inteligência para compreender a importância da vida humana e para se
recusarem a agir como animais comuns. O ser humano deve conhecer o objetivo de
sua vida, e a orientação é dada em todos os textos védicos e sua essência é
dada no Bhagavad-gitã. A literatura védica destina-se a seres humanos, e não a
animais. Os animais podem matar outros animais vivos, mas fica fora de
cogitação que com isto eles estejam cometendo algum pecado. Entretanto, se um
homem mata um animal para satisfazer seu paladar descontrolado, ele deve ser
responsável por infringir as leis da natureza. Explica-se claramente no
Bhagavad-gitã que, conforme os diferentes modos da natureza, há três espécies
de atividades: as atividades em bondade, paixão e ingnorância. De igual modo,
há também três espécies de alimentos: alimentos em bondade, paixão e
ignorância. Tudo isso é descrito com toda clareza, e se utilizarmos convenientemente
as instruções do Bhagavad-gitã, então, toda a nossa vida purificar-se-á, e
finalmente seremos capazes de alcançar o destino que está além deste céu
material (yad gatvã na nivartante tad dhãma paramam mama).
Este destino
chama-se o céu sanãtana, o céu eterno, espiritual. Neste mundo material, vê-se
que tudo é temporário. Ele passa a existir, permanece por algum tempo, produz
alguns subprodutos, vai minguando até que desaparece. Esta é a lei do mundo
material, quer usemos como exemplo este corpo, uma fruta ou qualquer outra
coisa. Mas somos informados de que, além deste mundo temporário, existe outro
mundo. Este mundo consiste em outra natureza, que é sanãtana, eterna. A jiva
também é descrita como sanãtana, eterna, e o Senhor também é descrito como sanãtana
no Décimo Primeiro Capítulo. Temos uma relação íntima com o Senhor, e como
somos todos qualitativamente unos _ o sanãtana-dhãma, ou céu, a Suprema
Personalidade sanãtana e as entidades vivas sanãtana _ , todo o propósito do
Bhagavad-gitã é reviver nossa ocupação sanãtana, ou sanãtana-dharma, que é a
ocupação eterna da entidade viva. Estamos temporariamente ocupados em diversas
atividades, mas todas essas atividades podem ser purificadas quando largamos
todas essas atividades temporárias e executamos as atividades prescritas pelo
Senhor Supremo. Isso passa a ser nossa vida pura.
Tanto o Senhor
Supremo quanto Sua morada transcendental são sanãtana, como o são as entidades
vivas, e a associação combinada do Senhor Supremo e das entidades vivas na morada
sanãtana é a perfeição da vida humana. O Senhor é muito bondoso com as
entidades vivas porque elas são Seus filhos. No Bhagavad-gitã, o Senhor Krishna
declara que sarva-yonisu...aham bija-pradah pita “Eu sou o pai de todos”. É
evidente que, de acordo com seus vários karmas, existem todas as classes de
entidades vivas, mas aqui o Senhor afirma ser o pai de todas elas. Por isso, o
Senhor vem para reaver todas essas almas condicionadas e caídas, e chamá-las de
volta ao céu sanãtana eterno para que as entidades vivas sanãtana possam
readquirir suas posições sanãtana eternas em eterna associação com o Senhor.
Para atrair a Si as almas condicionadas, o Senhor vem pessoalmente em
diferentes encarnações, ou envia Seus servos íntimos como filhos ou Seus
companheiros ou ãcãryas.
Portanto, o
sanãtana-dharma não se refere a nenhum processo religioso sectário. É a forma
eterna de as entidades vivas eternas conviverem com o Senhor Supremo eterno.
Sanãtana-dharma refere-se, como se afirmou antes, à ocupação eterna da entidade
viva. Sripada Rãmãnujãcãrya explica a palavra sanãtana como “aquilo que não tem
começo nem fim”; logo, quando falamos de sanãtana-dharma, devemos estar certos
de que, baseando-nos na autoridade de Sripãda Rãmãnujãcãrya, estamos aludindo a
algo que não tem nem começo nem fim.
A palavra religião
é um pouco diferente de sanãtana-dharma. Religião está relacionado a fé, e a fé
pode mudar. Pode-se ter fé num determinado processo, mas pode-se mudar de fé e
adotar outra, ao passo que sanãtana-dharma refere-se à atividade que não pode
mudar. Por exemplo, a água é sempre líquida e o fogo sempre transmite calor. De
modo semelhante, não se pode tirar da entidade viva sua função eterna.
Sanãtana-dharma é eternamente uma parte integral da entidade viva. Quando falamos
de sanãnatana-dharma, portanto, devemos estar certos de que, baseados na
autoridade de Sripãda Rãmãnujãcãrya, estamos nos referindo a algo que não tem
começo nem fim. Aquilo que não tem fim nem começo na certa não é sectário, pois
não pode limitar-se a quaisquer fronteiras. Aqueles que pertencem a alguma fé
sectária considerarão erroneamente que sanãtana-dharma também é sectário, mas
se nos aprofundarmos no assunto e o estudarmos à luz da ciência moderna, é
possível vermos que sanãtana-dharma é a atividade de todas as pessoas do mundo
_ aliás, de todas as entidades vivas do Universo.
Uma fé religiosa
não-sanãtana pode ter algum início nos anais da história humana, mas não há
início para a história de sanãtana-dharma, porque ele acompanha eternamente as
entidades vivas. Quanto às entidades vivas, os sãstras autorizados afirmam que
a entidade viva não tem nascimento nem morte. No Gitã, afirma-se que a entidade
viva nunca nasce e nunca morre. Ela é eterna e indestrutível, e continua a
viver após a destruição de seu corpo material temporário. Com referência ao
conceito de sanãtana-dharma, devemos tentar entender o conceito de religião,
recorrendo ao significado contido na raiz sânscrita desta palavra. Dharma
refere-se àquilo que é inerente a determinado objeto. Concluímos que junto com
o fogo há calor e luz; sem calor e luz a palavra fogo não faz sentido. Do mesmo
modo, devemos descobrir a parte essencial do ser vivo, aquela parte que sempre
o acompanha. Aquilo que sempre o acompanha constitui sua qualidade eterna, e
essa qualidade eterna é sua religião eterna.
Quando Sanãtana
Gosvãmi perguntou a Sri Caitanya Mahãprabhu sobre a svarupa de todo ser vivo, o
Senhor respondeu que a svarupa, ou posição constitucional, do ser vivo é
prestar serviço à Suprema Personalidade de Deus. Se analisamos esta afirmação
do Senhor Caitanya, facilmente podemos ver que todo ser vivo está
constantemente ocupado em prestar serviço a outro ser vivo. Um ser vivo serve a
outro ser vivo em várias intensidades. Com este procedimento, a entidade viva
desfruta da vida. Os animais inferiores servem aos seres humanos, assim como os
servos servem a seu amo. A serve ao amo B, B serve ao amo C, e C serve ao amo D
e assim por diante. Nessas circunstâncias, podemos ver que um amigo serve a
outro amigo, a mãe serve ao filho, a esposa serve ao marido, o marido serve à
esposa e assim por diante. Se continuarmos pesquisando neste espírito, veremos
que, na sociedade dos seres vivos, não há exceção à atividade que consiste em
servir. O político apresenta ao público seu manifesto para convencê-lo de sua
capacidade de prestar serviço. Os eleitores, portanto, dão seus valiosos votos
ao político, pensando que ele prestará valioso serviço à sociedade. O vendedor
serve ao freguês, e o artesão serve ao capitalista. O capitalista serve à
família, e a família serve ao Estado, caracterizando a eterna posição do ser
vivo eterno. Dessa maneira, podemos ver que não há sequer um ser vivo que deixe
de prestar serviço a outros seres vivos, e portanto podemos concluir com
segurança que o serviço acompanha constantemente o ser vivo e que a prestação
de serviço é a religião eterna do ser vivo.
Todavia, o homem,
sob influência do tempo e circunstância particulares, professa pertencer a
determinada espécie de fé e com isso alega ser hindu, muçulmano, cristão,
budista ou um membro de alguma outra seita. Tais designações não são
sanãtanã-dharma. O hindu pode mudar de fé e tornar-se muçulmano; o muçulmano
pode mudar de fé para tornar-se hindu; um cristão pode mudar de fé e assim por
diante. Mas, em nenhuma dessas circunstâncias, a mudança de fé religiosa afeta
a ocupação eterna que consiste em prestar serviço aos outros. Em todas as
circunstâncias, o hindu, o muçulmano ou o cristão são servos de alguém. Logo,
professar uma determinada espécie de fé não é professar o sanãtanã-dharma.
Prestar serviço é sanãtanã-dharma.
De fato, através do
serviço relacionamo-nos com o Senhor Supremo. O Senhor Supremo é o desfrutador
Supremo,e nós, entidades vivas, somos seus servos. Somos criados para lhe dar
prazer, e se participamos nesse prazer eterno da Suprema Personalidade de Deus,
tornamo-nos felizes. Não há outro processo que nos traga felicidade. Não é
possível ser feliz independentemente, assim como nenhuma parte do corpo pode
ser feliz sem cooperar com o estômago. Não é possível que a entidade viva seja
feliz deixando de prestar transcendental serviço amoroso ao Senhor Supremo.
No Bhagavad-gitã,
não se aprova a adoração a diferentes semideuses ou a prestação de serviço a
eles. Afirma-se no Sétimo Capítulo, vigésimo verso: ”Aqueles cuja inteligência
foi roubada pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses e prestam adoração
através de determinadas regras e regulações que se coadunam com suas próprias
naturezas.” Aqui, afirma-se com toda a franqueza que aqueles que se deixam
levar pela luxúria adoram os semideuses, e não o Supremo Senhor Krishna. Quando
mencionamos o nome Krishna, não nos referimos a algum nome sectário. Krishna
significa o prazer mais elevado, e confirma-se que o Senhor Supremo é o
reservatório ou depósito de todo o prazer. Estamos todos desejando o prazer.
Ãnanda-mayo ‘bhyãsãt (vedanta-sutra 1.1.12). Como o Senhor, as entidades vivas
são plenas de consciência, e elas estão buscando a felicidade. O senhor é
perpetuamente feliz, e se as entidades vivas associam-se com o Senhor, cooperam
com Ele e tornam-se Seus companheiros, então elas também se tornam felizes.
O Senhor desce a
este mundo mortal para mostrar os passatempos que Ele executa em Vrndãvana, que
são cheios de felicidade. Quando o Senhor Sri Krishna esteve em Vrndãvana, Suas
atividades com seus amigos vaqueirinhos, com Suas amigas donzelas, com outros
habitantes de Vrndãvana e com as vacas eram todas cheias de felicidade. Toda a
população de Vrndãvana só queria saber de Krishna. Mas o Senhor Krishna chegou
mesmo a dissuadir Seu pai Nanda Mahãraja de adorar o semideus Indra, porque Ele
queria estabelecer o fato de que as pessoas não precisam adorar nenhum
semideus. Tudo o que elas precisam é adorar o Senhor Supremo, porque sua meta
última é retornar à Sua morada.
A morada do Senhor
Sri Krishna é descrita no Décimo Quinto Capítulo, sexto verso, do
Bhagavad-gitã: “Essa Minha morada suprema não é iluminada pelo Sol nem pela
Lua, nem pelo fogo nem pela eletrecidade. Aqueles que a alcançam jamais
retornam a este mundo material.”
Este verso dá uma
descrição desse céu eterno. É evidente que fazemos a respeito do céu uma
concepção material, e ao pensarmos nele levamos em conta o Sol, a Lua, as
estrelas e assim por diante, mas neste verso o Senhor declara que no céu eterno
não há necessidade de Sol, Lua, eletrecidade ou fogo de espécie alguma porque o
céu espiritual já está iluminado pelo brahmajyoti, os raios que emanam do
Senhor Supremo. Estamos a duras penas tentando alcançar outros planetas, mas
não é difícil compreender a morada do Senhor Supremo. Essa morada chama-se
Goloka. No Brahma-samhitã (5.37), ela é belamente descrita: goloka Eva nivasaty
akhilãtma-bhutah. O Senhor reside eternamente em Sua morada, Goloka, todavia,
Ele é acessível a este mundo, e com este propósito o Senhor manifesta Sua
verdadeira forma, sac-cid-ãnanda-vigraha. Quando Ele manifesta essa forma, não
precisamos ficar imaginando qual o aspecto com que Ele Se parece. Para
desencorajar tal especulação imaginativa, Ele vem e manifesta-Se como Ele é,
como Syãmasundara. Infelizmente, os menos inteligentes zombam dEle porque Ele
aparece como um de nós e brinca conosco como um ser humano. Mas não é por causa
disso que vamos considerar o Senhor como um de nós. É por Sua onipotência que
Ele Se apresenta diante de nós em Sua forma verdadeira e manifesta Seus
passatempos, que são réplicas dos passatempos executados em Sua morada.
Nos raios
refulgentes do céu espiritual flutuam inumeráveis planetas. O brahmajyoti emana
da morada suprema, Krishnaloka, e os planetas ãnanda-maya, cin-maya, que não
são materiais, flutuam nesses raios. O Senhor diz: na tad bhãsayate suryo na
sasãnko na pãvakah/ yad gatvã na nivartante tad dhãma paramam mama. Aquele que
se aproxima desse céu espiritual não precisa descer novamente ao céu material.
No céu material, mesmo que nos aproximemos do planeta mais elevado
(Brahmaloka), encontraremos as mesmas condições de vida, a saber, nascimento,
morte, doença e velhice, que se dizer então, de aproximarmo-nos apenas da Lua ?
Nenhum planeta no universo material está livre destes quatro princípios da
existência material.
As entidades vivas
estão viajando de um planeta a outro, mas isto não significa que podemos ir a
qualquer planeta que quisermos através de meros arranjos mecânicos. Se
desejamos ir a outros planetas, há um processo para irmos até lá. Menciona-se
também isto: yãnti deva-vratã devãn pitrn yãnti pitr-vratãh. Não é necessário
nenhum arranjo mecânico se queremos empreender viagem interplanetária. O Gitã
instrui: yãnti deva-vratã devãn. A Lua, o Sol e os planetas superiores são
chamados Svargaloka. Há três diferentes categorias de planetas: sistemas
planetários superior, intermediário e inferior. A terra pertence ao sistema
planetário intermediário. Com uma fórmula muito simples, yãnti deva-vratãh
devãn, o Bhagavad-gitã informa-nos como viajar para os sistemas planetários
superiores (Devaloka). Tudo o que se precisa é adorar o semideus próprio
daquele planeta especifico e então ir à Lua, ao Sol ou a qualquer um dos
sistemas planetários superiores.
Todavia, o
Bhagavad-gitã não nos aconselha a irmos a nenhum dos planetas deste mundo
material, porque mesmo que, através de alguma espécie de dispositivo mecânico,
fôssemos a Brahmaloka, o planeta mais elevado, talvez viajando quarenta mil
anos ( e quem viveria tanto ? ), ainda assim encontraríamos as inconveniências
materiais sob a forma de nascimento, morte, doença e velhice. Mas quem quiser
aproximar-se do planeta supremo, Krishnaloka, ou de qualquer um dos outros
planetas existentes dentro do céu espiritual, não encontrará estas
inconveniências materiais. Entre todos os planetas do céu espiritual, há um
planeta supremo, chamado Goloka Vrndãvana, que é o planeta original, situado na
própria morada da Personalidade de Deus original, Sri Krishna. Toda esta
informação é fornecida no Bhagavad-gitã, através de cuja instrução recebemos a
informação de como deixarmos o mundo material e começarmos no céu espiritual
uma vida verdadeiramente bem-aventurada.
O Décimo Quinto
Capítulo do Bhagavad-gitã dá um verdadeiro retrato do mundo material. Lá está
dito: O mundo material é descrito como uma árvore cujas raízes ficam para cima
e cujos ramos ficam para baixo. Temos experiência de uma árvore cujas raízes
ficam para cima: se alguém colocar-se à margem de um rio ou de qualquer
reservatório de água, poderá ver que as árvores refletidas na água estão de
ponta-cabeça. Os ramos localizam-se embaixo e as raízes ficam na parte de cima.
Do mesmo modo, este mundo material é um reflexo do mundo espiritual. O mundo
material não passa de uma sombra da realidade. Na sombra, não há realidade nem
substancialidade, mas por meio da sombra, podemos compreender que existem
substância e realidade. No deserto não há água, mas a miragem sugere a
existência da água. No mundo material não há água, não há felicidade, mas a
verdadeira água da verdadeira felicidade está no mundo espiritual.
O Senhor sugere que
alcancemos o mundo espiritual (Bg. 15.5): Esse padam avyayam, ou o reino eterno,
pode ser alcançado por aquele que é nirmãna-mohã. Que significa isto ? Estamos
em busca de designações. Alguém quer se tornar “senhor”, outro quer ser
“chefe”, outrem quer ser presidente ou rico ou rei ou alguma outra coisa.
Enquanto estivermos apegados a estas designações, estaremos apegados ao corpo.
Mas não somos esses corpos, e entender isto é a primeira fase da percepção
espiritual. Estamos associados aos três modos da natureza material, mas devemos
nos desapegar através do serviço devocional ao Senhor. Se não estamos apegados
ao serviço devocional ao senhor, então não podemos desapegar-nos dos modos da
natureza material. Designações e apegos devem-se à nossa luxúria e desejo,
nossa vontade de assenhorearmo-nos da natureza material. Enquanto não abandonarmos
esta propensão de dominar a natureza material, não haverá possibilidade de
voltarmos ao reino do Supremo, o sanãtana-dharma. Esse reino eterno, que nunca
é destruído, está ao alcance de alguém que, não se deixando confundir pelas
atrações dos falsos prazeres materiais, está situado no serviço ao Senhor
Supremo. Nessa posição, a pessoa pode facilmente aproximar-se dessa morada
suprema.
Em outra passagem
do Gitã (8.21) declara-se: Avyakta significa imanifesto. Nem sequer o mundo
material manifesta-se diante de nós em sua totalidade. Nossos sentidos são tão
imperfeitos que nem mesmo podemos ver todas as estrelas dentro deste universo
material. Na literatura védica, podemos obter muitas informações sobre todos os
planetas, nas quais podemos acreditar ou não. Todos os planetas importantes são
descritos nos textos védicos, especialmente no Srimad-Bhãgavatam, e o mundo
espiritual, que fica além deste céu material, é descrito como avyakta,
imanifesto. Todos devem desejar e ambicionar esse reino supremo, pois, quando
alcançamos esse reino, não precisamos regressar a este mundo material.
Alguém talvez
pergunte então que é que se deve fazer para alcançar essa morada do Senhor
Supremo. A informação referente a isto pode ser encontrada no Oitavo Capítulo,
onde se diz: “Todo aquele que em seus instantes finais abandona o corpo
lembrando-se de Mim alcança imediatamente Minha natureza; e não há dúvidas
quanto a isto.” (Bg. 8.5) Aquele que na hora da morte pensa em Krishna vai ter
com Krishna. A pessoa deve procurar lembrar-se da forma de Krishna; se ao
abandonar o corpo ela pensa nessa forma, com certeza alcançará o reino
espiritual. Mad-bhãvam refere-se à natureza suprema do Ser Supremo. O Ser
Supremo é sac-cid-ãnanda-vigraha _ isto é, Sua forma é eterna, plena de conhecimento
e bem-aventurança. Nosso corpo atual não é sac-cid-ãnanda. É asat, e não sat.
Não é eterno; é perecível. Não é cit, pleno de conhecimento, mas cheio de
ignorância. Não conhecemos o reino espiritual, nem mesmo conhecemos
perfeitamente este mundo material, onde há tantas coisas de que não temos
conhecimento. O corpo é também nirãnanda; ao invés de ser pleno de
bem-aventurança, ele é cheio de misérias. Todas as misérias que experimentamos
no mundo material surgem do corpo, mas aquele que ao deixar este corpo pensa no
Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, obtém imediatamente um corpo
sac-cid-ãnanda.
No mundo material,
o processo através do qual se abandona este corpo e consegue-se outro também é
organizado. Um homem morre quando foi decidido que forma de corpo terá na
próxima vida. Autoridades superiores, e não a própria entidade viva, tomam esta
decisão. Conforme as atividades que realizamos nesta vida, subimos ou
afundamos. Esta vida é uma preparação para a próxima vida. Se, portanto, pudermos
nos preparar nesta vida para promovermo-nos ao reino de Deus, então na certa,
após deixarmos este corpo material, obteremos um corpo espiritual parecido com
o do Senhor.
Como já foi
explicado,há diversas categorias de transcendentalistas _ o Brahma-vãdi, o
paramãtma-vãdi e o devoto _ , e, como foi mencionado, no brahmajyoti (céu
espiritual), há inúmeros planetas espirituais. A quantidade desses planetas é
muitíssimo maior que o somatório de todos os planetas deste mundo material.
Este mundo material equivale a aproximadamente apenas um quarto da criação
(ekãmsena sthito jagat). Neste segmento material há milhões e bilhões de
universos com trilhões de planetas e sóis, estrelas e luas. Mas toda esta
criação é um mero fragmento da criação total. A maior parte da criação está no
céu espiritual. Quem deseja fundir-se na existência do Brahman Supremo é
transferido imediatamente para o brahmajyoti do Senhor Supremo e assim alcança
o céu espiritual. O devoto, que quer gozar da associação do Senhor Supremo, por
meio de Suas expansões plenárias como o Nãrãyana de quatro braços e com
diferentes nomes, tais como Pradyumna, Aniruddha e Govinda, associa-Se com ele.
Portanto, no fim da vida os transcendentalistas pensam no brahmajyoti, no
Paramãtmã ou na Suprema Personalidade de Deus Sri Krishna. Em qualquer dos
casos, eles entram no céu espiritual, mas só o devoto, ou aquele que está em
contato pessoal com o Senhor Supremo, entra nos planetas Vaikunthas ou no
planeta Goloka Vrndãvana. Na continuação, o Senhor ainda acrescenta que quanto
a isto “não há dúvida”. Deve-se acreditar firmemente nisto. Não devemos
rejeitar aquilo que não está de acordo com a nossa imaginação; devemos ter a
mesma atitude que foi tomada por Arjuna: “Acredito em tudo o que disseste”.
Portanto, quando o Senhor diz que quem, na hora da morte, pensar nEle como
Brahman ou Paramãtmã ou a Suprema Personalidade de Deus certamente entrará no
céu espiritual, não há dúvida quanto a isto. Fica fora de cogitação não
acreditar nisso.
O Bhagavad-gitã
(8.6) também explica o princípio geral que torna possível alguém entrar no
reino espiritual pelo simples fato de, na hora da morte, pensar no Supremo:
“Qualquer que seja o estado de existência do qual alguém se lembre ao deixar o
corpo atual, na sua próxima vida ele alcançarã esse mesmo estado
impreterivelmente.” Logo, devemos primeiro entender que a natureza material é a
manifestação de uma das energias do Senhor Supremo. No Visnu Purãna (6.7.61)
menciona-se as energias totais do Senhor Supremo: O Senhor Supremo tem diversas
e inúmeras energias que estão além de nossa concepção; no entanto, grandes
sábios eruditos ou almas liberadas estudaram essas energias e dissecaram-nas em
três partes. Todas as energias são visnu-sakti, quer dizer, elas são diferentes
potências do Senhor Visnu. A primeira energia é parã, transcendental. As
entidades vivas também pertencem à energia superior, como já foi explicado. As
outras energias, ou energias materiais, estão no modo da ignorância. Na hora da
morte, podemos permanecer na energia inferior deste mundo material, ou podemos
nos transferir para a energia do mundo espiritual. Assim, o Bhagavad-gitã (8.6)
diz: “Qualquer que seja o estado de existência do qual alguém se lembre ao
deixar o corpo atual, na sua próxima vida ele alcancará esse mesmo estado
impreterivelmente.
Na vida, estamos
acostumados a pensar na energia material ou na energia espiritual. Então, como
podemos transferir nossos pensamentos da energia material para a espiritual ?
Há tantas publicações que enchem nossos pensamentos de energia material _
jornais, revistas, romances, etc. Nosso pensamento, que agora está absorto
nessas publicações, deve transferir-se aos textos védicos, tais como os
Purãnas. Os Purãnas não são obras da imaginação; são registros históricos. No
Caitanya-caritãmrta (Madhya 20.122), há o seguinte verso: Amnésicas, as
entidades vivas ou almas condicionadas esqueceram-se de sua relação com o
Senhor Supremo, e estão absortas em pensar em atividades materiais. Só para que
elas transfiram ao céu espiritual a sua capacidade de pensar,
Krishna-dvaipãyana Vyãsa deixou um grande número de textos védicos. Primeiro,
dividiu os Vedas em quatro, depois explicou-os nos Purãnas, e para as pessoas
menos capacitadas escreveu o Mahãbhãrata. No Mahãbhãrata encontra-se o
Bhagavad-gitã. Então, toda a literatura védica é resumida no vedãnta-sutra, e
para orientação futura ele fez um comentário natural sobre o Vedãnta-sutra,
chamado Srimad-Bhãgavatam. Devemos sempre ocupar nossas mentes em ler esses
textos védicos. Assim como os materialistas ocupam suas mentes em ler jornais,
revistas e tantas outras publicações materialistas, devemos transferir nossa
leitura para estes textos que nos foram legados por Vyãsadeva; dessa maneira,
na hora da morte poderemos lembrar-nos do Senhor Supremo. Este é o único método
sugerido pelo Senhor, e Ele garante o resultado: “ Não há dúvida ” .
“Portanto, Arjuna,
deves sempre pensar em Mim sob a forma de Krishna e ao mesmo tempo continuar
com teu dever prescrito, que consiste em lutar. Com tuas atividades dedicadas a
Mim e com tua mente e inteligência fixas em Mim, não há dúvidas de que Me
alcançarás.” (Bg. 8.7)
Ele não aconselha
Arjuna a que simplesmente lembre-se dEle e abandone sua ocupação. Não, o Senhor
jamais sugere algo inviável. Neste mundo material, a fim de manter o corpo,
deve-se trabalhar. Segundo suas atividades, a sociedade humana tem quatro
divisões de ordem social _ brãhmana, ksatriya, vaisya e sudra. A classe
brãhmana, ou classe intelectual, trabalha de determinada maneira; a classe
ksatriya, ou administrativa, trabalha de outra maneira; e a classe mercantil e
os trabalhadores estão todos cuidando de seus deveres específicos. Na sociedade
humana, quer alguém seja trabalhador, comerciante, administrador ou fazendeiro,
quer pertença à classe mais elevada e seja um literato, cientista ou teólogo,
ele tem de subsistir através de seu trabalho. O Senhor, portanto, diz a Arjuna
que ele não precisa afastar-se de sua ocupação, mas enquanto está envolvido em
sua ocupação, ele deve lembrar-se de Krishna (mam anusmara). Se enquanto luta
pela existência ele não adquire a prática de lembrar-se de Krishna, então na
hora da morte não lhe será possível lembrar-se de Krishna. O Senhor Caitanya
também dá esse mesmo conselho. Ele diz que kirtaniyah sadã harih: todos devem
sempre procurar cantar os nomes do Senhor. Os nomes do Senhor e o Senhor não
são diferentes. Na plataforma absoluta, não há diferença entre referência e
referente. Portanto, temos de adquirir a prática de lembrar-nos sempre do
Senhor, vinte e quatro horas por dia, cantando seus nomes e moldando as
atividades de nossa vida de modo a podermos sempre lembrar-nos dEle.
Como é possível
isto ? Os ãcãryas dão o seguinte exemplo. Se uma mulher casada é apegada a
outro homem, ou se um homem tem apego a uma mulher que não é sua esposa, então
o apego deve ser considerado muito forte. Quem tem esse apego vive pensando na
pessoa amada. A esposa que pensa em seu amante vive pensando em encontrar-se
com ele, mesmo enquanto realiza suas tarefas domésticas. De fato, ela até mesmo
executa o trabalho doméstico com muito mais esmero para que seu marido não
suspeite de seu apego. Do mesmo modo, devemos sempre lembrar-nos do amante
supremo, Sri Krishna, e ao mesmo tempo cumprir muito bem com nossos deveres
materiais. Neste caso, é preciso um forte sentimento de amor. Se temos um forte
sentimento de amor pelo Senhor Supremo, então podemos desempenhar nosso dever e
ao mesmo tempo lembrar-nos dEle. Mas temos de desenvolver este sentimento de
amor. Arjuna, por exemplo, vivia pensando em Krishna; ele era o companheiro
constante de Krishna, e ao mesmo tempo, um guerreiro. Krishna não o aconselhou
a desistir da luta e ir meditar na floresta. Quando o Senhor Krishna descreve
para Arjuna o sistema de yoga, Arjuna diz que não lhe é possível praticar esse
sistema.
“Arjuna
disse: Ó Madhusudana, o sistema de yoga que resumiste parece-me impraticável e
inviável, pois a mente é inquieta e instável.” (Bg. 6.33)
Mas o Senhor diz: “
De todos os yogis, aquele que tem muita fé e sempre se refugia em Mim, pensa em
Mim dentro de si mesmo e Me presta transcendental serviço amoroso é o mais
intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos. Esta é a Minha
opinião.” (Bg. 6.47) Assim, aquele que sempre pensa no Senhor Supremo é ao
mesmo tempo o maior yogi, o jnãni supremo e o maior devoto. Continuando, o
Senhor diz a Arjuna que, como ksatriya ele não pode deixar de lutar, mas se
enquanto luta Arjuna lembrar-se de Krishna, então na hora da morte ele será
capaz de lembrar-se de Krishna. Mas a pessoa deve ser inteiramente rendida ao
transcendental serviço amoroso ao Senhor.
Na verdade, não
trabalhamos com nosso corpo, mas com nossa mente e inteligência. Logo, se a
inteligência e a mente estão sempre ocupadas em pensar no Senhor Supremo, então
os sentidos também vão ocupar-se em Seu serviço. Pelo menos superficialmente,
as atividades dos sentidos permanecem as mesmas, mas a consciência muda. O
Bhagavad-gitã nos ensina o processo pelo qual a mente e a inteligência ficam
absortas em pensar no senhor. Tal absorção nos capacitará a transferir-nos para
o reino do Senhor. Se a mente está ocupada a serviço de Krishna, então os
sentidos estão também ocupados em Seu serviço. Isto é uma arte, e este é também
o segredo do Bhagavad-gitã: absorção total em pensar em Sri Krishna.
O homem moderno
lutou mui arduamente para alcançar a Lua, mas não envidou muitos esforços para
elevar-se espiritualmente. Se uma pessoa tem cinquenta anos de vida pela
frente, deve aproveitar esse pequeno intervalo de tempo para cultivar está
prática de lembrar-se da Suprema Personalidade de Deus. Esta. Prática é o
processo devocional: Esses nove processos, dos quais o mais fácil é sravanam,
ouvir a pessoa realizada transmitir o Bhagavad-gitã, induzirão alguém a pensar
no Ser Supremo. Isto o levará a lembrar-se do Senhor Supremo e, ao abandonar o
corpo, estará em condições de obter um corpo espiritual com o qual possa
associar-se devidamente com o Senhor Supremo.
(Srimad-Bhãgavatam
7.5.23)
Continuando, o
Senhor Diz: “Aquele que, meditando em Mim como a Suprema Personalidade de Deus,
sempre ocupa tua mente em lembrar-se de Mim e não se desvia do caminho, ó
Arjuna, com certeza Me alcança.” (Bg. 8.8)
Este processo não é
muito difícil. Entretanto, deve-se aprende-lo com uma pessoa experiente.
Tad-vijnãnãrtham sa gurum evãbhigacchet: devemos aproximar-nos de alguém que já
tenha prática. A mente está sempre voando para cá e para lá, mas deve-se ficar
prático em sempre concentrar a mente na forma do Senhor Supremo, Sri Krishna,
ou no som do Seu nome. Por natureza, a mente é inquieta, indo de cá para lá,
mas ela pode fixar-se na vibração sonora Krishna. Portanto, todos devem meditar
no paramam purusam, a Suprema Personalidade de Deus que está no reino
espiritual, o céu espiritual, e assim alcança-lO. Os meios e os métodos para
alguém atingir compreensão última, são delineados no Bhagavad-gitã, e as portas
deste conhecimento estão abertas a todos. Ninguém está excluído. Todas as
classes de pessoas podem aproximar-se do Senhor Krishna pensando nEle, pois
ouvir e pensar sobre Ele é possível a todos.
O Senhor continua
dizendo: Mesmo um comerciante, uma mulher degradada ou um trabalhador ou até
mesmo seres humanos no estado de vida mais baixa podem alcançar o Supremo. Não
é preciso inteligência altamente desenvolvida. O fato é que qualquer um que
acate o princípio de bhakti-yoga e aceite o Senhor Supremo como o summum bonum
da vida, como o objetivo máximo, a meta última, pode aproximar-se do Senhor no
céu espiritual. Se a pessoa adota os princípios enunciados no Bhagavad-gitã,
ela pode tornar sua vida perfeita e resolver definitivamente todos os problemas
da vida. Esta é a essência de todo o Bhagavad-gitã. (Bg. 9.32-33)
Em conclusão, o
Bhagavad-gitã é um livro transcendental que se deve ler com muita atenção.
Gitã-sãstram idam punyam yah pathet prayatah pumãn: quem segue corretamente as
instruções do Bhagavad-gitã pode se livrar de todas as misérias e ansiedades
existentes na vida. Bhaya-sokãdi-varjitah. Ele se libertará de todos os temores
nesta vida, e sua vida seguinte será espiritual. (Gitã-mãhãtmya 1)
Há também outra
vantagem: “Se alguém lê o Bhagavad-gitã mui sinceramente e com toda a
seriedade, então, pela graça do Senhor, as reações de seus malefícios passados
não agirão sobre ele.” (Gitã-mãhãtmya 2) O Senhor proclama na última parte do
Bhagavad-gitã (18.66): “Abandona todas as variedades de religião e simplismente
rende-te a Mim. Eu te libertarei de todas as reações pecaminosas. Não temas.”
Assim, o Senhor assume toda a responsabilidade por aquele que se rende a Ele, e
Ele exime esta pessoa de todas as reações dos pecados.
“Alguém pode ficar
limpo tomando um banho diário, mas se ao menos uma vez ele toma um banho na
água do sagrado Ganges do Bhagavad-gitã, para ele a sujeira da vida material
extingue-se por completo.” (Gitã mãhãtmya 3)
Como o
Bhagavad-gitã é falado pela Suprema Personalidade de Deus, não é preciso ler
nenhum outro texto védico. Precisa-se apenas ouvir e ler atenta e regularmente
o Bhagavad-gitã. Na era atual, as pessoas vivem tão absortas em atividades
mundanas que não lhes é possível ler todos os textos védicos. Mas isto não é
necessário. Este único livro, o Bhagavad-gitã, bastará, porque ele é a essência
de todos os textos védicos e especialmente porque é falado pela Suprema
Personalidade de Deus. (Gitã-mãhãtmya 4)
Como está dito: “Se
aquele que bebe a água do Ganges obtém a salvação, então, Que se dizer daquele
que bebe o néctar do Bhagavad-gitã ? O Bhagavad-gitã é o néctar mais refinado
do Mahãbhãrata, e é falado pelo próprio Senhor Krishna, o Visnu original.”
(Gitã-mãhãtmya 5) O Bhagavad-gitã provém da boca da Suprema Personalidade de
Deus, e afirma-se que o Ganges emana dos pés de lótus do Senhor. É obvio que não
há diferença entre a boca e os pés do Senhor Supremo, porém, através de um
estudo imparcial, podemos ver que o Bhagavad-gitã é até mesmo mais importante
que a água do Ganges.
“Este Gitopanisad,
o Bhagavad-gitã, a essência de todos os Upanisads, é tal qual uma vaca, e o
Senhor Krishna, que é famoso como vaqueirinho, está ordenhando essa vaca.
Arjuna é como um bezerro, e aos estudiosos eruditos e devotos puros
recomenda-se-lhes beber o leite nectário do Bhagavad-gitã.” (Gitã-mãhãtmya 6)
Hoje em dia, as pessoas
estão muito desejosas de ter uma só escritura, um só Deus, uma só religião e
uma só ocupação. Portanto, ekam sãstram devaki-putra-gitam: que haja uma única
escritura, uma escritura que sirva para o mundo todo _ o Bhagavad-gitã. Eko
devo devaki-putra eva: que haja um só Deus para o mundo inteiro _ Sri Krishna.
Eko mantras tasya nãmãni: e um hino, um mantra, uma oração _ o canto do Seu
nome: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare
Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare. Karmãpy ekam tasya devasya sevã: e que haja apenas
uma atividade _ o serviço à Suprema Personalidade de Deus. (Gitã-mãhãtmya 7)
1. Krishna
2. Brahma
3. Nãrada
4. Vyãsa
5. Madhva
6. Padmanãbha
7. Nrhari
8. Mãdhava
9. Aksobhya
10. Jaya Tirtha
11. Jnãnasindhu
12. Dayãnidhi
13. Vidyãnidhi
14. Rãjendra
15. Jayadharma
16. Purusottama
17. Brahmanya
Tirtha Prabhupãda
18.
Vyãsa Tirtha
19.
Laksmipati
20.
Mãdhavendra Puri
21. Isvara
Puri, (Nityãnanda
22.
Senhor Caitanya
23. Rupa,
(Svarupa, Sanãtana)
24.
Raghunãtha, Jiva
25.
Krishnadãsa
26.
Narottama
27.
Visvanãtha
28.
(Baladeva), Jagannãtha
29.
Bhaktivinoda
30.
Gaurakisora
31.
Bhaktisiddhãnta Sarasvati
32.
A. C. Bhaktivedanta Swami
Este volume autêntico haverá de encontrar um lugar adequado em nossas bibliotecas e institutos, como também proporcionará um insight para as pessoas seriamente curiosas a respeito do conhecimento e da cultura espirituais da Índia.”
Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana
Independente do Brasil
Primeiro sanscritista do Brasil
História Oriental da
Universidade de São Paulo
Eminente autoridade sobre Yoga - Brasil
Presidente de estudos Religiosos
Franklin e Marshall College
monge e autor católico falecido
Professor Emérito de História das Religiões
Diretor da Biblioteca
Graduate Theological Union, Berkeley
Professor de Sociologia
Universidade do Estado de Nova Iorque
Doutor em Ciências Religiosas
Instituto de Estudos Políticos, Paris