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O BHAGAVAD-GITA COMO ELE É

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Montando o cenário
 
Embora seja em si amplamente publicado e lido, o Bhagavad-gitã aparece originalmente como um episódio do Mahãbhãrata, o épico sânscrito que narra a história do mundo antigo. O Mahãbhãrata alude a eventos que se estendem até a presente era de Kali. Foi no início desta era, cerca de cinqüenta séculos atrás, que o senhor Krishna falou o Bhagavad-gitã a seu amigo e devoto arjuna. 

Os colóquios entre eles _ um dos mais grandiosos diálogos filosóficos e religiosos que o homem conhece _ aconteceram pouco antes do início de uma guerra, um grande conflito fratricida entre os cem filhos de Dhrtarãstra e, do lado oposto, seus primos, os Pãndavas, ou filhos de Pãndu. 

Dhrtarãstra e Pãndu, irmãos nascidos na dinastia Kuru, eram descendentes do rei Bharata, um antigo goveranante da terra, do qual provém o nome Mahãbhãrata. Porque Dhrtarãstra, o irmão mais velho, nascera cego, o trono que normalmente seria seu foi transferido para seu irmão mais novo, Pãndu. 

Quando Pãndu morreu numa idade precoce, seus cinco filhos _ Yudhistira, Bhima, Arjuna, Nakula e Sahadeva _ ficaram sob os cuidados de Dhrtarãstra, que, de fato, tornou-se interinamente o rei. Assim, os filhos de Dhrtarãstra e os de Pãndu cresceram na mesma casa real. Ambos os grupos foram treinados nas artes militares pelo proficiente Drona e aconselhados pelo venerável “avô do clã, Bhisma. 

Entretanto, os filhos de Drtarãstra, especialmente o mais velho, Duryodhana, odiavam e invejavam os Pãndavas. E o cego e influenciável Dhrtarãstra queria que seus próprios filhos, e não os de Pãndu, herdassem o reino. 
Assim Duryodhana, com o consentimento de Dhrtarãstra, tramou matar os jovens filhos de Pãndu, e foi apenas devido à cuidadosa proteção que seu tio Vidura e seu primo, o Senhor Krishna, lhes deram que os Pãndavas escaparam das muitas investidas feitas contra suas vidas. 

Ora, o Senhor Krishna não era um homem comum, mas a própria Divindade Suprema, que havia descido à terra e desempenhava a função de príncipe numa dinastia contemporânea. Neste papel, Ele também era sobrinho da esposa de Pãndu, Kunti, ou Prthã, a mãe dos Pãndavas. Assim, quer como parente, quer como o eterno defensor da religião, Krishna favorecia e protegia os virtuosos filhos de Pãndu. 

Finalmente, porém, o astuto Duryodhana desafiou os Pãndavas a participarem de um jogo. Durante aquela competição fatídica, Duryodhana e seus irmãos apossaram-se de Draupadi, a casta e devotada esposa dos Pãndavas, e insultuosamente tentaram despi-la diante de toda a assembléia de príncipes e reis. A intervenção divina de Krishna salvou-a, mas o jogo, que fora fraudulento, despojou os Pãndavas de seu reino e forçou-os a viver treze anos no exílio. 

Ao voltarem do exílio, os Pãndavas, recorrendo a seus direitos, exigiram que Duryodhana lhes devolvesse o reino, mas ele recusou-se peremptoriamente a atender a esta ordem. Sendo eles príncipes cujo dever era servir na administração pública, os cinco Pãndavas reduziram sua exigência, pedindo para ficarem apenas com cinco aldeias. Mas Duryodhana arrogantemente respondeu que não lhes cederia nem mesmo um punhado de terra onde conseguissem espetar um alfinete. 
Durante todos esses incidentes, os Pãndavas sempre foram tolerantes e pacientes. Mas agora a guerra parecia inevitável. 

Todavia, à medida que os príncipes do mundo se dividiam, alguns aliando-se aos filhos de Dhrtarãstra, outros tomando o partido dos Pãndavas, o próprio Krishna aceitou ser o mensageiro dos filhos de Pãndu e foi à corte de Dhrtarãstra pleitear a paz. Depois que suas propostas foram recusadas, a guerra tornou-se certa. 
Os Pãndavas, homens da maior estatura moral, reconheciam Krishna como a Suprema Personalidade de Deus, ao passo que os ímpios filhos de Dhrtarãstra não tiveram essa mesma atitude. No entanto, Krishna estipulou que Sua participação na guerra seria conforme o desejo dos antagonistas. Como Deus, Ele não lutaria pessoalmente; mas quem o desejasse, poderia servir-se do exército de Krishna _ e o outro lado poderia ter o próprio Krishna como conselheiro e ajudante. Duryodhana, o gênio político, preferiu açambarcar as forças armadas de Krishna, mas os Pãndavas ficaram ávidos de contar com o prórpio Krishna. 

Deste modo. Krishna tornou-se o quadrigário de Arjuna, incumbindo-Se de dirigir a quadriga do famoso arqueiro. Isto nos leva ao ponto em que começa o Bhagavad-gitã, com os dois exércitos enfileirados, prontos para o combate, e Dhrtarãstra perguntando ansiosamente a seu secretário Sanjaya: “Que fizeram eles ? “ 
O cenário está montado, sendo necessária apenas uma breve nota sobre esta tradução e comentário. 
Ao apresentarem o Bhagavad-gitã, os tradutores têm adotado como padrão geral afastar a pessoa de Krishna para abrirem espaço para seus próprios conceitos e filosofias. A história do Mahãbhãrata é tida como mitologia fantasiosa, e Krishna vira um artifício poético, permitindo então serem apresentadas as idéias de algum gênio anônimo, ou na melhor das hipóteses Ele se torna uma personagem histórica sem muita influência. 
Mas no que se refere àquilo que o próprio Gitã transmite, a pessoa Krishna é a meta e a substância do Bhagavad-gitã. 

Esta tradução, portanto, e o comentário que a acompanha propõem-se a encaminhar o leitor a Krishna, e não a afasta-lo dEle. Neste aspecto, o O Bhagavad-gitã Como Ele É é bastante singular. Também, esta é necessariamente a única tradução que apresenta a verdadeira essência desta grande escritura. 
Os Editores 

Prefácio
 


Originalmente, escrevi o O Bhagavad-gitã Como Ele É na forma em que está sendo apresentado agora. Quando este livro foi publicado pela primeira vez, o manuscrito original foi, infelizmente, reduzido a menos de quatrocentos páginas, sem ilustrações nem explicações para a maioria dos versos originais do Srimad Bhagavad-gitã. Em todos os meus outros livros _ Srimad-Bhagavatam, Sri Isopanisad, etc. _ é seguido o sistema no qual apresento o verso original, sua transliteração latina, os equivalentes de cada palavra em sânscrito e inglês, traduções e significados. Isso torna o livro muito autêntico e erudito e deixa o sentido aflorar naturalmente. Não fiquei muito feliz, portanto, quando tive de reduzir ao mínimo o meu manuscrito original. Depois, porém, quando houve considerável interesse pelo Bhagavad-gitã Como Ele É, muitos eruditos e devotos pediram-me que apresentasse o livro em sua forma original. Portanto, através desta edição estamos tentando oferecer o manuscrito original deste grande livro de conhecimento, contendo a explicação completa apresentada pelo paranparã, de modo a estabelecer mais sólida e progressivamente o movimento da consciência de Krishna. 

Por ser baseado no O Bhagavad-gitã Como Ele É, nosso movimento da consciência de Krishna é genuíno, historicamente autorizado, natural e transcendental. Pouco a pouco, ele está se tornando o movimento mais popular do mundo inteiro, em especial entre a geração mais jovem. Também para a geração mais velha, está se tornando cada vez mais interessante. Pessoas mais idosas estão se interessando mais, tanto que os pais e avós de meus discípulos estão nos encorajando, tornando-se membros vitalícios de nossa grande sociedade, a Sociedade Internacional da Consciência de Krishna. Em Los Angeles, muito pais e mães vinham ver-me para expressar seus sentimentos de gratidão por eu liderar o movimento da Consciência de Krishna em todo o mundo. Alguns deles disseram que os americanos eram muito afortunados por eu ter iniciado nos Estados Unidos o movimento da consciência de Krishna. Mas na verdade o pai original deste movimento é o próprio Krishna, pois Ele começou há mutíssimo tempo, mas está chegando até a sociedade humana pela sucessão discipular. Se tenho algum mérito nisto, não o adquiri pessoalmente, mas graças a meu mestre espiritual eterno, Sua Divina Graça Om Visnupãda Paramahansa Parivrãjakãcãrya Astottara-sata Sri Srimad Bhaktisiddhãnta Sarasvati Gosvãmi Mahãrãja Prabhupãda. 

Se tenho algum crédito pessoal neste assunto, é somente porque tentei apresentar o Bhagavad-gitã Como Ele É, sem nenhuma adulteração. Antes de eu apresentar o O Bhagavad-gitã Como Ele É, quase todas as edições do Bhagavad-gitã em inglês foram introduzidas para satisfazer a ambição pessoal de alguém. Mas nossa intenção, ao apresentarmos o O Bhagavad-gitã Como Ele É, é apresentar a missão da Suprema Personalidade de Deus, Krishna. Aceitamos como tarefa nossa apresentar a vontade de Krishna, não a de qualquer especulador mundano, tal como o político, o filósofo ou o cientista, pois, embora tenham tanto conhecimento, eles têm pouquíssimo conhecimento acerca de Krishna. Quando Krishna diz que man-manã bhava mad-bhakto mad-yãji mam namaskuru, etc., nós, ao contrário dos pretensos eruditos, não dizemos que Krishna e seu espírito interior são diferentes. Krishna é absoluto,e não há diferença entre o nome de Krishna, a forma de Krishna, as qualidades de Krishna, os passatempos de krishna, etc. Esta posição absoluta de Krishna, é difícil de ser entendida por alguém que, não sendo devoto de Krishna, não está incluído no sistema de paramparã (sucessão discipular). Em geral, os supostos eruditos, políticos, filósofos e swãmis, que não têm perfeito conhecimento acerca de Krishna, tentam banir ou eliminar Krishna quando escrevem comentários sobre o Bhagavad-gitã. Tais comentários desautorizados sobre o Bhagavad-gitã são conhecidos como Mãyãvada-bhãsya, e o Senhor Caitanya nos adverte desses homens espúrios. O Senhor Caitanya diz claramente que alguém que tentar entender o Bhagavad-gitã do ponto de vista Mãyãvãdi cometerá um grande erro. Por causa desse erro, o desencaminhado estudante do Bhagavad-gitã decerto se confundirá no processo da orientação espiritual e não conseguirá voltar ao lar, voltar ao supremo. 

Nosso único propósito é apresentar este O Bhagavad-gitã Como Ele É para que o estudante condicionado possa participar do mesmo propósito pelo qual Krishna desce a este planeta uma vez a cada dia de Brahma, ou a cada 8.600.000.000 de anos. Este propósito está declarado no Bhagavad-gitã, e temos de aceita-lo como ele é; caso contrário, não adianta tentar entender o Bhagavad-gitã e seu orador, o Senhor Krishna. O Senhor Krishna primeiro falou o Bhagavad-gitã ao deus do Sol há centenas de milhões de anos. Temos de aceitar este fato e assim entendermos, baseados na autoridade de Krishna, a importância histórica do Bhagavad-gitã, sem deturpações. É grande ofensa interpretar o Bhagavad-gitã sem fazer referência alguma a vontade de Krishna. Para nos salvarmos desta ofensa, temos de compreender o Senhor como a Suprema Personalidade de Deus, como ele foi diretamente compreendido por Arjuna, o primeiro discípulo do Senhor Krishna. Tal maneira de compreender o Bhagavad-gitã é de fato autorizada e traz proveito para o bem-estar da sociedade humana, capacitando-a a cumprir a missão da vida. 

Na sociedade humana, o movimento da consciência de Krishna é essencial, pois oferece a mais elevada perfeição da vida. O Bhagavad-gitã explica plenamente como isto acontece. Infelizmente, argumentadores mundanos se aproveitaram do Bhagavad-gitã para promover suas propensões demoníacas e desorientar as pessoas no tocante à compreensão correta dos princípios simples da vida. Todos devem saber como Deus, ou Krishna, é grande, e todos devem saber que a entidade viva é serva eterna e que, se não servirmos a Krishna, teremos de servir à ilusão imersos nas diferentes variedades dos três modos da natureza material e assim vagar perpetuamente dentro do ciclo de nascimentos e mortes; mesmo o especulador mãyãvãdi que se julga liberado deve submeter-se a este processo. Este conhecimento constitui uma grande ciência, e todo ser vivo deve procurar ouvi-lo para o seu próprio bem. 


As pessoas em geral, especialmente nesta era de Kali, estão sob o encanto da energia externa de Krishna, e pensam que, com a melhora dos confortos materiais, todos serão felizes. Elas não têm nenhum conhecimento de que a natureza material, ou a natureza externa, é muito forte, pois todos estão firmemente atados às estritas leis da natureza material. Em sua posição feliz original, a entidade viva é parte integrante do Senhor, e portanto sua função natural é prestar serviço pessoal ao Senhor. Sob o encanto da ilusão, as diferentes formas de entidades vivas tentar ser felizes buscando satisfazer o gozo dos próprios sentidos, mas isto nunca as fará felizes. Em vez de satisfazer os próprios sentidos materiais, a pessoa deve procurar satisfazer os sentidos do Senhor. Esta é a perfeição máxima da vida. O Senhor quer e exige isto. Deve-se entender este ponto central do Bhagavad-gitã. Nosso movimento da consciência de Krishna está ensinando ao mundo inteiro este ponto central, e porque não estamos poluindo o tema do O Bhagavad-gitã Como Ele É, qualquer pessoa seriamente interessada em beneficiar-se do estudo do Bhagavad-gitã deve aceitar a ajuda oferecida pelo movimento da consciência de Krishna, qualificando-se a obter entendimento prático acerca do Bhagavad-gitã sob a orientação direta do Senhor. Esperamos, portanto, que as pessoas tirem o maior benefício estudando o O Bhagavad-gitã Como Ele É, aqui apresentado por nós, e se mesmo uma só pessoa se tornar devoto puro do senhor, consideraremos nossa tentativa um sucesso. 


A C. Bhaktivedanta Swami 

12 de maio de 1971 
Sydney, Austrália 

Introdução 

Nasci na mais escura ignorância, e meu mestre espiritual abriu meus olhos com o archote do conhecimento. Ofereço-lhe minhas respeitosas reverências. 

Quando será que Srila Rupa Gosvãmi Prabhupãda, que dentro deste mundo material aceitou como sua missão satisfazer o desejo do Senhor Caitanya, dar-me-á refúgio sob seus pés de lótus ? 

Ofereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de meu mestre espiritual e aos pés de todos os vaisnavas. Ofereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de Srila Rupa Gosvãmi e de seu irmão mais velho Sanãtana Gosvãmi, bem como de Raghunãtha Dãsa e Raghunãtha Bhatta, Gopãla Bhatta e Srila Jiva Gosvãmi. Ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Krishna Caitanya e ao Senhor Nityãnanda, e também a Advaita Ãcãrya, Gadãdhara, Srivãsa e aos demais associados. Ofereço minhas respeitosas reverências a Srimati Rãdhãrãni e Sri Krishna, bem como a Suas companheiras Sri Lalitã e Visãkhã. 

Ó meu querido Krishna, és o amigo dos aflitos e a fonte da criação. És o Senhor das gopis e o amante de Rãdhãrãni. Ofereço-te minhas respeitosas reverências. 

Ofereço meus respeitos a Rãdhãrãni, cuja tonalidade corpórea lembra o ouro derretido e que é a rainha de Vrndãvana. És filha do rei Vrsabhãnu, e és muito querida do Senhor Krishna. 

Ofereço minhas respeitosas reverências a todos os devotos vaisnavas do Senhor. Exatamente como árvores dos desejos, eles podem satisfazer os desejos de todos, e estão cheios de compaixão pelas almas caídas. 

Ofereço minhas respeitosas reverências a Sri Krishna Caitanya, Prabhu Nityãnanda, Sri Advaita, Gadãdhara, Srivãsa e a todos os outros que estão na linha devocional. 

hare krishna hare krishna 
krishna krishna hare hare 
hare rãma hare rãma 
rãma rãma hare hare
 

O Bhagavad-gitã também é conhecido como Gitopanisad. É a essência do conhecimento védico e um dos mais importantes Upanisads da literatura védica. É claro que, em inglês, há muitos comentários ao Bhagavad-gitã, e pode-se perguntar qual a necessidade de outro. Esta presente edição pode ser explicada da seguinta maneira. Recentemente, uma senhora americana pediu-me que lhe recomendasse uma tradução do Bhagavad-gitã em inglês. É evidente que nos Estados Unidos há muitas edições do Bhagavad-gitã disponíveis em inglês, porém, ao que me consta não só nos Estados Unidos, mas também na Índia, nenhuma delas pode a rigor ser chamada de autorizada porque em cada uma delas o comentador expressa suas próprias opiniões e não toca no verdadeiro espírito do Bhagavad-gitã. 

O espírito do Bhagavad-gitã é mencionado no próprio Bhagavad-gitã. Por exemplo, se queremos tomar determinado remédio, temos de seguir as instruções contidas na bula. Não podemos tomar o remédio conforme nosso próprio capricho ou segundo a instrução de um amigo. Devemos toma-lo conforme as instruções da bula ou do médico. De modo semelhante, o Bhagavad-gitã deve ser recebido ou aceito conforme as instruções de seu próprio orador. O orador do Bhagavad-gitã é o Senhor Krishna. Em cada página do Bhagavad-gitã, Ele é mencionado como a Suprema Personalidade de Deus, Bhagavãn. Evidentemente, a palavra bhagavãn às vezes refere-se a alguma pessoa poderosa ou a algum semideus poderoso, e com certeza aqui bhagavãn designa o Senhor Sri Krishna como uma grande personalidade, mas ao mesmo tempo devemos saber que o Senhor Sri Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, como é confirmado por todos os grandes ãcãryas (mestres espirituais), tais como Sankarãcãrya, Rãmãnujãcãrya, Madhvãcãrya, Nimbãrka Svãmi, Sri Caitanya Mahãprabhu e muitos outros que são autoridades no conhecimento védico da Índia. No Bhagavad-gitã, o prórpio Senhor também se estabelece como a Suprema Personalidade de Deus, e é com esta conotação que O descrevem o Brahma-samhitã e todos os Purãnas, especialmente o Srimad-Bhãgavatam, conhecido como o Bhãgavata Purãna (krishnas tu bhagavãn svayam). Portanto, devemos aceitar o Bhagavad-gitã como ele é transmitido pela própria Personalidade de Deus. 


No quarto Capítulo do Gitã (4.1-3), o Senhor informa a Arjuna que este sistema de yoga, o Bhagavad-gitã, foi primeiramente falado ao deus do Sol, e o deus do Sol explicou-o a Manu, e Manu explicou-o a Iksvãku, e assim este sistema de yoga foi transmitido através da sucessão discipular, um orador após outro. Porém, com o passar do tempo, ele se perdeu. Em consequência, o Senhor tem de falá –lo de novo, esta vez a Arjuna no Campo de Batalha de Kuruksetra. 


Ele diz a Arjuna que está lhe contando este segredo supremo porque Arjuna é Seu devoto e seu amigo. Isto significa que o Bhagavad-gitã é um tratado especialmente destinado ao devoto do Senhor. Há três classes de transcendentalistas, a saber, o jnãni, o yogi e o bhakta, ou o impersonalista, o meditador e o devoto. Aqui, o Senhor diz claramente a Arjuna que está fazendo dele o primeiro recebedor que integra um novo paramparã (sucessão discipular) porque a sucessão antiga foi interrompida. Era desejo do Senhor, portanto, estabelecer outro parampãra que seguisse a mesma linha de pensamento que o deus do Sol transmitira a outros, e era Seu desejo que este ensinamento voltasse a ser distribuído por Arjuna. Ele queria que Arjuna se tornasse uma autoridade versada no Bhagavad-gitã. Logo, vemos que o Bhagavad-gitã é instruído a Arjuna especialmente porque Arjuna era um devoto do Senhor, um aluno direto de Krishna e seu amigo íntimo. Portanto, entende melhor o Bhagavad-gitã uma pessoa com qualidades semelhantes às de Arjuna. Quer dizer, ela deve ser um devoto que cultiva relação direta com o Senhor. Logo que alguém se torna devoto do senhor, também tem um relacionamento direto com o Senhor. Este é um assunto muito esmerado, mas em resumo pode-se afirmar que o devoto mantém com a Suprema Personalidade de Deus uma destas cinco diferentes relações: 


1. Pode-se ser devoto em estado passivo; 

2. Pode-se ser devoto em estado ativo; 
3. Pode-se ser devoto como amigo 
4. Pode-se ser devoto como pai ou mãe 
5. Pode-se ser devoto como amante conjugal. 

Arjuna relacionava-se com o senhor como amigo. É claro que há um abismo de diferença entre esta amizade e a amizade encontrada no mundo material. Nem todos têm uma relação específica com o Senhor, e esta relação é revivida através da perfeição alcançada com o serviço devocional. Mas no nosso atual estado de vida, não apenas esquecemo-nos do Senhor Supremo,mas também esquecemo-nos de nossa relação eterna com o Senhor. Cada ser vivo, dentre os muitos e muitos bilhões e trilhões de seres vivos, tem eternamente uma relação específica com o Senhor. Isto se chama svarupa. Pelo processo do serviço devocional, pode-se reviver esta svarupa, e esta etapa chama-se svarupa-siddhi _ perfeição da nossa posição constitucional. Logo, Arjuna era um devoto, e seu contato como Senhor Supremo era em amizade. 

Deve-se atentar em como Arjuna aceitou este Bhagavad-gitã. Seu modo de aceitação é mencionado no Décimo Capítulo (10.12-14) “ Arjuna disse: És a Suprema Personalidade de Deus, a morada última, o mais puro, a Verdade Absoluta. És a pessoa original, eterna e transcendental, o não-nascido, o maior. Todos os grandes sábios, tais como Nãrada, Asita, Devala e Vyãsa, confirmam esta verdade referente a Ti, e Tu mesmo acabas de revela-la para mim. Ó Krishna, aceito totalmente como verdade tudo o que me disseste. Nem os semideuses nem os demônios, ó Senhor, podem compreender Tua personalidade. “ 


Após ouvir a Suprema Personalidade de Deus falar o Bhagavad-gitã, Arjuna aceitou Krishna como param Brahma, o Brahmam Supremo. Todo ser vivo é Brahman, mas o ser vivo supremo, ou a Suprema Personalidade de Deus, é o Brahman Supremo. Param dhãma quer dizer que Ele é o supremo repouso ou a morada de tudo; pavitram quer dizer que Ele é puro, não manchado pela contaminação material; purusam quer dizer que Ele é o desfrutador supremo; sasvatam, original; divyam, transcendental; adi-devam, a Suprema Personalidade de Deus; ajam, o não-nascido; e vibhum, o maior. 


Ora, alguém talvez pense que, como Krishna era seu amigo, Arjuna dizia-lhe tudo isso para lisonjeá-lo, porém, só para tirar esta espécie de dúvida das mentes dos leitores do Bhagavad-gitã, Arjuna legitima estes louvores no verso seguinte quando diz que Krishna é aceito como a Suprema Personalidade de Deus não por ele próprio, mas por autoridades como Nãrada, Asita, Devala e Vyãsadeva. Estas grandes personalidades distribuem o conhecimento védico como o aceitam todos os ãcãryas. Por isso, Arjuna diz a Krishna que aceita como inteiramente perfeito tudo o que Ele fala. Sarvam etad rtam manye: “ Aceito como verdadeiro tudo o que dizes “. Arjuna também diz que a personalidade do Senhor é muito difícil de entender e que Ele não pode ser conhecido nem mesmo pelos grandes semideuses. Isto significa que o Senhor não pode ser conhecido mesmo por personalidades maiores que os seres humanos. Então, como pode um ser humano compreender o Senhor Sri Krishna sem tornar-se Seu devoto ? 

Portanto, o Bhagavad-gitã deve ser recebido com um espírito de devoção. Ninguém deve ficar pensando que é igual a Krishna, tampouco deve alguém pensar que Krishna é uma personalidade comum ou quiçá uma personalidade grandiosa. O Senhor Sri Krishna é a Suprema Personalidade de Deus. Assim, de acordo com as afirmações do Bhagavad-gitã ou as declarações de Arjuna, a pessoa que tentava entender o Bhagavad-gitã, devemos ao menos em teoria aceitar Krishna como a Suprema Personalidade de Deus, e com este espírito submisso podemos compreender o Bhagavad-gitã. Quem não lê o Bhagavad-gitã com espírito submisso terá muita dificuldade de compreender o Bhagavad-gitã, porque ele é um grande mistério. 

Exatamente que é o Bhagavad-gitã ? O Bhagavad-gitã propõe-se a livrar a humanidade da ignorância própria da existência material. Cada pessoa anda às voltas com tantos obstáculos, assim como Arjuna tinha diante de si essa dificuldade: ter de lutar na Batalha de Kuruksetra. Arjuna rendeu-se a Sri Krishna, e em consequência foi falado este Bhagavad-gitã. Não só Arjuna, mas cada um de nós está cheio de ansiedades por causa desta existência material. Nossa própria existência está na atmosfera de não existência. De fato, não estamos destinados a sermos ameaçados pela não existência. Nossa existência é eterna. Mas de alguma maneira somos postos em asat. Asat refere-se áquilo que não existe. 


Dentre tantos seres humanos que estão sofrendo, poucos são os que estão realmente perguntando sobre sua posição, sobre o que eles são, por que estão nesta posição ingrata e assim por diante. Se a pessoa não despertar para esta posição na qual ela quer saber o porquê do seu sofrimento, se não se der conta de que, em vez de sofrer, prefere solucionar todo o sofrimento, então não se deve considera-la um ser humano perfeito. Alguém é incluído entre os seres humanos quando esta espécie de indagação surge em sua mente. No Brahma-sutra, esta indagação chama-se Brahma-jijnãsã. Athãto Brahma-jijnãsã. Toda atividade do ser humano deve ser considerada um fracasso enquanto ele ainda não tiver perguntado sobre a natureza do Absoluto. Portanto, aqueles que começam a perguntar por que estão sofrendo ou de onde vieram e para onde irão após a morte são estudantes que têm condições de compreender o Bhagavad-gitã. O estudante sincero deve também ter firme respeito pela Suprema Personalidade de Deus. Eis a espécie de estudante que Arjuna era. 


O Senhor Krishna advém especificamente para restabelecer o verdadeiro propósito da vida sempre que o homem se esquece deste propósito. Mesmo então, dentre os muitos e muitos seres humanos que despertam, talvez haja um que realmente procura compreender sua posição, e para ele é falado este Bhagavad-gitã. De fato, somos todos engolidos pelo tigre da ignorância, mas o Senhor tem muita misericórdia das entidades vivas, especialmente dos seres humanos. Foi por isso que Ele falou o Bhagavad-gitã, fazendo de Seu amigo Arjuna Seu aluno. 

Sendo um companheiro do Senhor Krishna, Arjuna estava acima de toda a ignorância, mas no Campo de Batalha de Kuruksetra, arjuna foi posto em ignorância apenas para perguntar ao Senhor Krishna sobre os problemas da vida de tal maneira que o Senhor pudesse explica-los, para que as futuras gerações de seres humanos se beneficiassem e se traçasse o plano da vida. Então, o homem poderia agir de acordo com estes princípios e aperfeiçoar a missão da vida humana. 

O assunto do Bhagavad-gitã envolve a compreensão de cinco verdades básicas. Em primeiro lugar, explica-se a ciência de Deus e depois a posição constitucional das entidades vivas, as jivas. Há o isvara, que significa o controlador, e há as jivas, as entidades vivas sobre as quais se exerce controle. Se uma entidade viva diz que não é controlada mas sim, livre, então ela é louca. O ser vivo é controlado em todos os aspectos, pelo menos na vida condicionada. Assim, no Bhagavad-gitã, descrevem-se o isvara, o controlador supremo, e as jivas, as entidades vivas controladas. Também se discutem prakrti (a natureza material) e o tempo (a duração da existência de todo o Universo ou da manifestação da natureza material) e karma (atividade). A manifestação cósmica está cheia de diferentes atividades. Todas as entidades vivas estão ocupadas em diversas atividades. Através do Bhagavad-gitã, devemos aprender o que é Deus, o que são as entidades vivas, o que é prakrti, o que é a manifestação cósmica, como ela é controlada pelo tempo, e quais são as atividades das entidades vivas. 


Destes cinco tópicos básicos, inseridos no Bhagavad-gitã, fica estabelecido que a Divindade Suprema, ou Krishna, ou Brahman, ou o controlador supremo, ou Paramãtmã _ alguém pode usar o melhor termo que lhe aprouver _ é o maior de todos. Os seres vivos têm as mesmas qualidades do controlador supremo. Por exemplo, o Senhor controla os assuntos universais da natureza material, como será explicado nos capítulos posteriores do Bhagavad-gitã. A natureza material não é independente. Ela age sob a direção do Senhor Supremo. Como o Senhor Krishna diz, mayãdhyaksena prakrtih suyate sa-carãcaram: “ Esta natureza material funciona sob Minha direção”. Quando vemos fenômenos maravilhosos acontecendo na natureza cósmica, devemos saber que, por trás desta manifestação cósmica, há um controlador. Nada poderia manifestar-se se não houvesse controle. É infantilidade não levar em conta a presença do controlador. Por exemplo, uma criança pode achar realmente maravilhoso que um automóvel seja capaz de correr sem que um cavalo ou outro animal o puxe, mas o homem são conhece a natureza da engenharia mecânica do automóvel. Ele sempre sabe que por trás da máquina há um homem, um motorista. De modo semelhante, o Senhor Supremo é o motorista sob cuja direção tudo funciona. Como veremos nos capítulos ulteriores, o fato é que as jivas, ou entidades vivas, foram aceitas pelo Senhor como Suas partes integrantes. Uma partícula de ouro também é ouro, uma gota dágua do oceano também é salgada, e de igual modo, nós, as entidades vivas, sendo partes integrantes do controlador supremo, isvara, ou Bhagavãn, Senhor Sri Krishna, temos em quantidade diminuta todas as qualidades do Senhor Supremo porque somos isvaras diminutos, isvaras subordinados. Estamos tentando controlar o espaço ou os planetas, e temos esta tendência, controlar, porque ela existe em Krishna. Porém, embora tenhamos por tendência assenhorearmo-nos da natureza material, é bom sabermos que não somos o controlador supremo. Isto é explicado no Bhagavad-gitã. 


Que é natureza material ? Esta também é explicada no Gitã como prakrti inferior, natureza inferior. Menciona-se que a entidade viva é prakrti superior. A prakrti, inferior ou superior, está sempre sob controle. A prakrti é feminina, e é controlada pelo Senhor, assim como as atividades da esposa são controladas pelo marido. A prakrti é sempre subordinada, predominada pelo Senhor, que predomina. As entidades vivas e a natureza material são predominadas, e estão controladas pelo Senhor Supremo. Segundo o Gitã, as entidades vivas, embora partes integrantes do Senhor Supremo, devem ser consideradas prakrti. Isto é claramente mencionado no Sétimo Capítulo do Bhagavad-gitã. Apareyam itas tv anyãm prakrtim viddhi me param/ jiva-bhutãm: “Esta natureza material é Minha prakrti inferior, porém, além desta há outra prakrti _ jiva-bhutãm, a entidade viva”. 


A própria natureza material é constituída por três qualidades: o modo da bondade, o modo da paixão e o modo da ignorância. Acima desses modos, há o tempo eterno, e através da combinação desses modos da natureza e sob o controle e jurisdição do tempo eterno, há atividades, que são chamadas karma. Essas atividades vêm sendo realizadas desde tempos imemoriais, e sofremos ou gozamos os frutos de nossas atividades. Por exemplo, suponhamos que eu seja um homem de negócios e tenha usado minha inteligência trabalhando arduamente para conseguir um grande saldo bancário. Então, sou o desfrutador. Mas digamos então que eu tenha perdido todo o dinheiro nos negócios; então, sou o sofredor. Do mesmo modo, em cada esfera da vida gozamos ou sofremos os resultados de nosso trabalho. Isto se chama karma. 


Isvara ( o Senhor Supremo), jiva ( a entidade viva), prakrti ( a natureza), kala ( o tempo eterno), e karma (atividades) são todos explicados no Bhagavad-gitã. Destes cinco, o Senhor, as entidades vivas, a natureza material e o tempo são eternos. A manifestação de prakrti pode ser temporária, mas não é falsa. Alguns filósofos dizem que a manifestação da natureza é falsa, porém, segundo a filosofia do Bhagavad-gitã ou segundo a filosofia dos vaisnavas, tal opinião não é aceitável. A manifestação do mundo não é aceita como falsa; é aceita como real, embora temporária. É comparada a uma nuvem que se move no céu, ou a vinda da estação das chuvas, que serve para nutrir os grãos. Logo que termina a estação das chuvas e logo que a nuvem se vai, todas as plantas que brotaram após a semeadura e foram nutridas pela chuva definham. Do mesmo modo, esta manifestação material acontece num certo intervalo, permanece por algum tempo e então desaparece. Eis como funciona a prakrti. Mas este ciclo ocorre eternamente. Portanto, a prakrti é eterna; ela não é falsa. O Senhor refere-se a ela como “Minha prakrti”. Esta natureza material é a energia separada do Senhor Supremo, e de maneira semelhante, as entidades vivas também são energia do Senhor Supremo, embora não sejam separadas, mas eternamente relacionadas com Ele. Então o Senhor, a entidade viva, a natureza material e o tempo estão todos inter-relacionados e são eternos. Entretanto, o outro item, karma, não é eterno. De fato, os efeitos do karma podem ser bem antigos. Desde tempos imemoriais, estamos sofrendo ou desfrutando os resultados de nossas atividades, mas podemos modificar os resultados de nosso karma, ou de nossas atividades, e esta modificação depende da perfeição de nosso conhecimento. Estamos ocupados em várias atividades. Evidentemente, não sabemos que espécie de atividades devemos adotar para aliviarmo-nos das ações e reações de todas essas atividades, mas também se explica isto no Bhagavad-gitã. 


Em sua posição, isvara, o Senhor Supremo, é a consciência suprema. As jivas, ou entidades vivas, sendo partes integrantes do Senhor Supremo, também são conscientes. A entidade viva e a natureza material são explicadas como prakrti, a energia do Senhor Supremo, mas uma das duas, a jiva é consciente. A outra prakrti não é consciente. Esta é a diferença. Logo, a jiva-prakrti é chamada superior porque a jiva tem consciência semelhante a do Senhor. Entretanto, a consciência do Senhor é Suprema, e ninguém deve ficar argumentando que a jiva, a entidade viva, também é supremamente consciente. Em fase alguma de sua perfeição pode o ser vivo ser supremamente consciente, e a teoria segundo a qual ele pode atingir este ponto é uma teoria desorientadora. Ele pode ser consciente, mas não é perfeita ou supremamente consciente. 


A distinção entre a jiva e o isvara será explicada no Décimo Terceiro Capítulo do Bhagavad-gitã. O Senhor é ksetra-jna, consciente, como também o é o ser vivo, mas o ser vivo é consciente de seu corpo particular, ao passo que o Senhor é consciente de todos os corpos. Porque vive no coração de cada ser vivo, o Senhor é consciente das atividades psíquicas das jivas específicas. É bom não nos esquecermos disto. Explica-se também que o Paramãtmã, A Suprema Personalidade de Deus, vive nos corações de todos como isvara, o controlador, e que Ele dá instruções para a entidade viva agir de modo a satisfazer seus anseios. A entidade viva esquece-se dos atos que deve executar. Em primeiro lugar, ela resolve agir de certa maneira, e então enreda-se nas ações e reações de suas atividades passadas. Essas atividades podem mudar quando o ser vivo está no modo da bondade, em seu juízo perfeito, e compreende que espécie de atividades deve adotar. Se tomar esta atitude, então todas as ações e reações de suas atividades passadas poderão ser modificadas. Consequentemente, o karma não é eterno. Por isso, afirmamos que, dos cinco itens (isvara, jiva, prakrti, tempo e karma), quatro são eternos, mas o karma não é eterno. 


O supremo isvara consciente assemelha-se à entidade viva no seguinte aspecto: tanto a consciência do Senhor quanto a da entidade viva são transcendentais. Não se deve julgar que a consciência surge através da associação com a matéria. Esta idéia é errada. A teoria segundo a qual a consciência desenvolve-se sob certas circunstâncias de combinação material não é aceita no Bhagavad-gitã. A consciência pode mostrar-se deturpada ao ficar encoberta por circunstâncias materiais, assim como a luz refletida através do vidro colorido aparentemente assume certa cor, mas a consciência do Senhor não é afetada materialmente. O Senhor Krishna diz: mayãdhyaksena prakrtih. Quando Ele vem ao universo material, Sua consciência não é afetada materialmente. Se ela sofresse essa influência, Ele não teria condições de falar de assuntos transcendentais como aqueles que Ele transmite no Bhagavad-gitã. Não pode dizer nada sobre o mundo transcendental quem não está livre da consciência materialmente contaminada. Portanto, o Senhor não está sob a contaminação material. Todavia, no momento atual, nossa consciência está materialmente contaminada. O Bhagavad-gitã ensina que temos de purificar esta consciência materialmente contaminada. Em consciência pura, nossas ações serão ajustadas à vontade do isvara, e isso nos fará felizes. Não é que tenhamos de parar com todas as atividades. Ao contrário, nossas atividades devem ser purificadas, e atividades purificadas chaman-se bhakti. Atividades em bhakti parecem atividades comuns, mas a diferença é que elas não são contaminadas. Uma pessoa ignorante vai ver o devoto agindo ou trabalhando como um homem comum, mas essa pessoa que tem um pobre fundo de conhecimento não sabe que as atividades do devoto ou as do Senhor não são contamindas pela consciência ou pela matéria impuras. Elas são transcendentais aos três modos da natureza. Devemos saber, porém, que no ponto a que chegamos nossa consciência está contaminada. 


Quando estamos materialmente contaminados, podemos chamar-nos condicionados. A consciência falsa manifesta-se naquele que se julga um produto da natureza material. Chama-se isto falso ego. Quem está absorto em pensar em conceitos corpórios não pode compreender sua situação. O Bhagavad-gitã foi falado pra que todos possam livrar-se da concepção de vida corpórea, e Arjuna colocou-se nesta posição para que o Senhor lhe fornecesse esta informação. Devemos nos livrar da concepção de vida corpórea; esta é a atividade preliminar para quem deseja ser transcendentalista. A pessoa que quer tornar-se livre, que quer tornar-se liberada, deve primeiramente aprender que ela não é este corpo material. Mukti, ou liberação, significa estar livre da consciência material. Também no Srimad-Bhãgavatam é dada a definição de liberação. Muktir hitvãnyathã-rupam svarupena vyavasthitih: mukti significa que a consciência contaminada liberta-se deste mundo e situações materiais, tornando-se consciência pura. Todas as instruções do Bhagavad-gitã servem para despertar esta consciência pura, e por isso encontramos na última etapa das instruções do Gitã Krishna perguntando a Arjuna se agora ele está em consciência purificada. Consciência purificada significa agir de acordo com as instruções do Senhor. Nisto se resume a Consciência purificada. A consciência já existe porque somos partes integrantes do Senhor, mas temos a tendência de nos deixarmos afetar pelos modos inferiores. Mas o Senhor, sendo o supremo, nunca é afetado. Esta é a diferença entre o Senhor Supremo e as pequenas almas individuais. 


Que é esta consciência ? Esta consciência é “Eu sou”. Então, que sou eu ? Em consciência contaminada, “Eu sou” quer dizer “Eu sou o senhor de tudo o que me circunda. Eu sou o desfrutador”. O mundo prossegue porque cada ser vivo julga ser o senhor e criador do mundo material. A consciência material tem duas divisões psíquicas. Uma delas defende a idéia de que eu sou o criador, e segundo a outra eu sou o desfrutador. Mas na verdade, o Senhor Supremo é tanto o criador quanto o desfrutador, e a entidade viva, sendo parte integrante do Senhor Supremo, não é o criador nem o desfrutador, mas um cooperador. Ela foi criada para ser desfrutada. Por exemplo, uma peça de uma máquina coopera com a máquina toda; uma parte do corpo coopera com todo o corpo. As mãos, pernas, olhos, e assim por diante são todos partes do corpo, mas na verdade não são os desfrutadores. O desfrutador é o estômago. As pernas se locomovem, as mãos fornecem o alimento, os dentes mastigam, e todas as partes do corpo estão ocupadas em satisfazer o estômago porque o estômago é o principal fator que nutre a organização do corpo. Portanto, tudo é dado ao estômago. Nutre-se uma árvore regando-lhe a raiz, e nutre-se o corpo alimentando o estômago, pois para que o corpo se mantenha em estado saudável, as partes do corpo devem cooperar para alimentar o estômago. De modo semelhante, o Senhor Supremo é o desfrutador e o criador, e nós, como seres vivos subordinados, devemos procurar colaborar em satisfaze-LO. Esta cooperação acabará nos ajudando, assim como o alimento recebido pelo estômago ajudará todas as outras partes do corpo. Se os dedos da mão pensarem que devem tomar o alimento em vez de dá-lo ao estômago, então malograr-se-ão. A figura central da criação e do desfrute é o Senhor Supremo, e as entidades vivas cooperam com Ele. Cooperando, elas desfrutam. A relação é também como a do amo e do servo. Se o amo está plenamente satisfeito, então o servo também fica satisfeito. Da mesma maneira, deve-se procurar satisfazer o Senhor Supremo, embora nas entidades vivas também exista a tendência de tornar-se o criador e a tendência de desfrutar o mundo material, porque estas tendências existem no Senhor Supremo, que criou o mundo cósmico manifesto. 


Verificaremos, portanto, neste Bhagavad-gitã que o todo completo é formado pelo controlador supremo, pelas entidades vivas controladas, pela manifestação cósmica, pelo tempo eterno e pelo karma, ou atividades, todos os quais são explicados neste texto. Tomados em conjunto, todos eles formam o todo completo, e o todo completo é chamado de Suprema Verdade Absoluta. O todo completo e a Verdade Absoluta completa São a personalidade de Deus completa, Sri Krishna. Todas as manifestações devem-se a Suas diferentes energias. Ele é o todo completo. 

Mais ainda, explica-se no Gitã que o Brahmam impessoal também está subordinado à Pessoa Suprema completa (brahmano hi pratisthãham). O Brahma-sutra explica mais explicitamente que o Brahmam é como os raios do sol. O Brahmam impessoal são os raios brilhantes da Suprema Personalidade de Deus. O Brahmam impessoal caracteriza uma etapa na qual se compreende parcialmente o todo absoluto, e isto também se dá com aqueles que atingem a concepção do Paramãtmã. No Décimo Quinto Capítulo, ver-se-á que a Suprema Personalidade de Deus, Purusottama, está acima tanto do Brahmam impessoal quanto da compreensão parcial acerca do Paramãtmã. A Suprema Personalidade de Deus é chamada sac-cid-ãnanda-vigraha. Eis como começa o Brahma-samhitã: isvarah paramah krishnah sac-cid-ãnanda-vigrahah/ anãdir govindah sarva-kãrana-kãranam. 

Govinda, Krishna, é a causa de todas as causas. Ele é a causa primordial, e Ele é a própria forma de eternidade, conhecimento e bem-aventurança. “ A compreensão acerca do Brahmam impessoal é a percepção de seu aspecto sat (eternidade). A percepção Paramãtmã é a compreensão acerca de sat-cit ( conhecimento eterno). Mas entender a Personalidade de Deus, Krishna, é entender todas as características transcendentais: sat, cit e ãnanda (eternidade, conhecimento e bem-aventurança) na vigraha (forma) completa. 


Pessoas menos inteligentes consideram a Verdade Suprema como impessoal, mas Ele é uma pessoa transcendental, e confirmam isto todos os textos védicos. Nityo nityãnãm cetanas cetanãnãm. (katha Upanisad 2.2.13) Assim como todos nós somos seres vivos individuais e temos nossa individualidade, a Suprema Verdade Absoluta é também, em última análise, uma pessoa, e compreender a Personalidade de Deus é compreender todas as características transcendentais que existem em Sua forma completa. O todo completo não é amorfo. Se Ele é amorfo ou se lhe falta algo, então, Ele não pode ser o todo completo. O todo completo deve ter tudo o que existe dentro e fora de nossa experiência, caso contrário, ele não poderia ser completo. 


O todo completo, a Personalidade de Deus, tem potências imensas (parãsya saktir vividhaiva sruyate). No Bhagavad-gitã , também se explica como Krishna age através de diferentes potências. Este mundo fenomenal ou o mundo material em que nos encontramos também já é em si mesmo completo. Isto porque, segundo a filosofia sãnkhya, os vinte e quatro elementos que compreendem a manifestação temporária do universo material estão inteiramente ajustados para produzir recursos completos que são necessários para a manutenção e subsistência deste Universo. Não há nada impertinente, tampouco falta algo. O tempo de permanência desta manifestação é fixado pela energia do todo supremo, e expirado o tempo, estas manifestações temporárias serão aniquiladas, seguindo à risca o perfeito arranjo estabelecido pelo completo. Existem todas as condições favoráveis para que as pequenas unidades completas, a saber, as entidades vivas, possam entender o completo, e tudo o que é incompleto é experimentado devido ao incompleto conhecimento acerca do completo. Por isso, o Bhagavad-gitã contém o conhecimento completo da sabedoria védica. 


Todo o conhecimento védico é infalível, e os hindus aceitam o conhecimento védico como completo e infalível. Por exemplo, o esterco da vaca é o excremento de um animal, e de acordo com o smrti, ou preceito védico, se alguém tocar o excremento de um animal deverá tomar um banho para purificar-se. Mas nas escrituras védicas o estrume da vaca é considerado um agente purificador. Alguém talvez considere isso contraditório, mas é aceito por ser preceito védico, e de fato, aceitando isso, não se cometerá erro; posteriormente, a ciência moderna provou que o estrume de vaca contém todas as propriedades anti-sépticas. Logo, o conhecimento védico é completo por estar acima de quaisquer dúvidas e enganos, e o Bhagavad-gitã é a essência de todo o conhecimento védico. 


O conhecimento védico não é uma questão de pesquisa. Nosso trabalho de pesquisa é imperfeito porque estamos pesquisando objetos com sentidos imperfeitos. Temos de aceitar o conhecimento perfeito que, como se afirma no Bhagavad-gitã, desce através do paramparã (sucessão discipular). Temos de receber conhecimento da fonte apropriada, a sucessão discipular começando com o mestre espiritual supremo, o próprio Senhor, e que é transmitido a uma sucessão de mestres espirituais. Arjuna, o estudante que recebeu aulas do Senhor Sri Krishna, aceita tudo que Ele diz, sem contradize-LO. Não é permitido aceitar uma parte do Bhagavad-gitã e rejeitar outra. Não. Devemos aceitar o Bhagavad-gitã sem interpretações, sem supressões e sem nossa própria caprichosa participação no assunto. O Gitã deve ser acolhido como a mais perfeita apresentação do conhecimento védico. O conhecimento védico é recebido de fontes transcendentais, e as primeiras palavras foram faladas pelo próprio Senhor. As palavras proferidas pelo Senhor chamam-se apauruseya, ou seja, elas são diferentes das palavras pronunciadas por uma pessoa mundana que está infectada de quatro defeitos. A pessoa mundana (1) na certa comete erros; (2) está invarivelmente iludida; (3) tem a tendência de enganar os outros; e (4) é limitada por sentidos imperfeitos. Com Essas quatro imperfeições, não é possível transmitir informação perfeita referente ao conhecimento onipenetrante 

O conhecimento védico não é transmitido por essas entidades vivas deficientes. Ele foi revelado no coração de Brahmã, a primeira criatura, e Brahmã, por sua vez, disseminou este conhecimento entre seus filhos e discípulos, como ele o recebeu originalmente do Senhor. O senhor é purnam, perfeitíssimo, e não há possibilidade alguma de Ele sujeitar-se às leis da natureza material. Todos, portanto, devem ser bastante inteligentes para saber que o Senhor é o único proprietário de tudo no Universo e que Ele é o criador original, o criador de Brahmã. No Décimo Primeiro Capítulo, o Senhor é tratado de prapitãmaha porque Brahmã é chamado de pitãmaha, o avô, sendo Ele o criador do avô. Logo, ninguém deve alegar ser proprietário de algo; cada um deve aceitar somente aquilo que o Senhor estipulou como a cota para a sua manutenção. 

São muitos os exemplos próprios para mostrarem como devemos utilizar tudo aquilo que o senhor designou para nós. No Bhagavad-gitã também se explica isto. No início, Arjuna decidiu que não deveria lutar na Batalha de Kuruksetra. Ele mesmo tomou a decisão. Arjuna disse ao Senhor que não lhe era possível desfrutar o reino após matar seus próprios parentes. Esta decisão baseava-se no corpo porque ele pensava que era o corpo e que suas relações ou expansões corpóreas eram seus irmãos, sobrinhos, cunhados, avós e assim por diante. Portanto, ele queria satisfazer suas exigências corpóreas. O Bhagavad-gitã foi falado pelo Senhor só para mudar esta opinião, e no final, quando diz, karisye vacanam tava: “Agirei segundo Tua palavra ´, Arjuna decide lutar sob as instruções do Senhor. 

Neste mundo, os homens não estão designados para brigar como cães e gatos. Os homens devem ter suficiente inteligência para compreender a importância da vida humana e para se recusarem a agir como animais comuns. O ser humano deve conhecer o objetivo de sua vida, e a orientação é dada em todos os textos védicos e sua essência é dada no Bhagavad-gitã. A literatura védica destina-se a seres humanos, e não a animais. Os animais podem matar outros animais vivos, mas fica fora de cogitação que com isto eles estejam cometendo algum pecado. Entretanto, se um homem mata um animal para satisfazer seu paladar descontrolado, ele deve ser responsável por infringir as leis da natureza. Explica-se claramente no Bhagavad-gitã que, conforme os diferentes modos da natureza, há três espécies de atividades: as atividades em bondade, paixão e ingnorância. De igual modo, há também três espécies de alimentos: alimentos em bondade, paixão e ignorância. Tudo isso é descrito com toda clareza, e se utilizarmos convenientemente as instruções do Bhagavad-gitã, então, toda a nossa vida purificar-se-á, e finalmente seremos capazes de alcançar o destino que está além deste céu material (yad gatvã na nivartante tad dhãma paramam mama). 

Este destino chama-se o céu sanãtana, o céu eterno, espiritual. Neste mundo material, vê-se que tudo é temporário. Ele passa a existir, permanece por algum tempo, produz alguns subprodutos, vai minguando até que desaparece. Esta é a lei do mundo material, quer usemos como exemplo este corpo, uma fruta ou qualquer outra coisa. Mas somos informados de que, além deste mundo temporário, existe outro mundo. Este mundo consiste em outra natureza, que é sanãtana, eterna. A jiva também é descrita como sanãtana, eterna, e o Senhor também é descrito como sanãtana no Décimo Primeiro Capítulo. Temos uma relação íntima com o Senhor, e como somos todos qualitativamente unos _ o sanãtana-dhãma, ou céu, a Suprema Personalidade sanãtana e as entidades vivas sanãtana _ , todo o propósito do Bhagavad-gitã é reviver nossa ocupação sanãtana, ou sanãtana-dharma, que é a ocupação eterna da entidade viva. Estamos temporariamente ocupados em diversas atividades, mas todas essas atividades podem ser purificadas quando largamos todas essas atividades temporárias e executamos as atividades prescritas pelo Senhor Supremo. Isso passa a ser nossa vida pura. 


Tanto o Senhor Supremo quanto Sua morada transcendental são sanãtana, como o são as entidades vivas, e a associação combinada do Senhor Supremo e das entidades vivas na morada sanãtana é a perfeição da vida humana. O Senhor é muito bondoso com as entidades vivas porque elas são Seus filhos. No Bhagavad-gitã, o Senhor Krishna declara que sarva-yonisu...aham bija-pradah pita “Eu sou o pai de todos”. É evidente que, de acordo com seus vários karmas, existem todas as classes de entidades vivas, mas aqui o Senhor afirma ser o pai de todas elas. Por isso, o Senhor vem para reaver todas essas almas condicionadas e caídas, e chamá-las de volta ao céu sanãtana eterno para que as entidades vivas sanãtana possam readquirir suas posições sanãtana eternas em eterna associação com o Senhor. Para atrair a Si as almas condicionadas, o Senhor vem pessoalmente em diferentes encarnações, ou envia Seus servos íntimos como filhos ou Seus companheiros ou ãcãryas. 


Portanto, o sanãtana-dharma não se refere a nenhum processo religioso sectário. É a forma eterna de as entidades vivas eternas conviverem com o Senhor Supremo eterno. Sanãtana-dharma refere-se, como se afirmou antes, à ocupação eterna da entidade viva. Sripada Rãmãnujãcãrya explica a palavra sanãtana como “aquilo que não tem começo nem fim”; logo, quando falamos de sanãtana-dharma, devemos estar certos de que, baseando-nos na autoridade de Sripãda Rãmãnujãcãrya, estamos aludindo a algo que não tem nem começo nem fim. 


A palavra religião é um pouco diferente de sanãtana-dharma. Religião está relacionado a fé, e a fé pode mudar. Pode-se ter fé num determinado processo, mas pode-se mudar de fé e adotar outra, ao passo que sanãtana-dharma refere-se à atividade que não pode mudar. Por exemplo, a água é sempre líquida e o fogo sempre transmite calor. De modo semelhante, não se pode tirar da entidade viva sua função eterna. Sanãtana-dharma é eternamente uma parte integral da entidade viva. Quando falamos de sanãnatana-dharma, portanto, devemos estar certos de que, baseados na autoridade de Sripãda Rãmãnujãcãrya, estamos nos referindo a algo que não tem começo nem fim. Aquilo que não tem fim nem começo na certa não é sectário, pois não pode limitar-se a quaisquer fronteiras. Aqueles que pertencem a alguma fé sectária considerarão erroneamente que sanãtana-dharma também é sectário, mas se nos aprofundarmos no assunto e o estudarmos à luz da ciência moderna, é possível vermos que sanãtana-dharma é a atividade de todas as pessoas do mundo _ aliás, de todas as entidades vivas do Universo. 


Uma fé religiosa não-sanãtana pode ter algum início nos anais da história humana, mas não há início para a história de sanãtana-dharma, porque ele acompanha eternamente as entidades vivas. Quanto às entidades vivas, os sãstras autorizados afirmam que a entidade viva não tem nascimento nem morte. No Gitã, afirma-se que a entidade viva nunca nasce e nunca morre. Ela é eterna e indestrutível, e continua a viver após a destruição de seu corpo material temporário. Com referência ao conceito de sanãtana-dharma, devemos tentar entender o conceito de religião, recorrendo ao significado contido na raiz sânscrita desta palavra. Dharma refere-se àquilo que é inerente a determinado objeto. Concluímos que junto com o fogo há calor e luz; sem calor e luz a palavra fogo não faz sentido. Do mesmo modo, devemos descobrir a parte essencial do ser vivo, aquela parte que sempre o acompanha. Aquilo que sempre o acompanha constitui sua qualidade eterna, e essa qualidade eterna é sua religião eterna. 


Quando Sanãtana Gosvãmi perguntou a Sri Caitanya Mahãprabhu sobre a svarupa de todo ser vivo, o Senhor respondeu que a svarupa, ou posição constitucional, do ser vivo é prestar serviço à Suprema Personalidade de Deus. Se analisamos esta afirmação do Senhor Caitanya, facilmente podemos ver que todo ser vivo está constantemente ocupado em prestar serviço a outro ser vivo. Um ser vivo serve a outro ser vivo em várias intensidades. Com este procedimento, a entidade viva desfruta da vida. Os animais inferiores servem aos seres humanos, assim como os servos servem a seu amo. A serve ao amo B, B serve ao amo C, e C serve ao amo D e assim por diante. Nessas circunstâncias, podemos ver que um amigo serve a outro amigo, a mãe serve ao filho, a esposa serve ao marido, o marido serve à esposa e assim por diante. Se continuarmos pesquisando neste espírito, veremos que, na sociedade dos seres vivos, não há exceção à atividade que consiste em servir. O político apresenta ao público seu manifesto para convencê-lo de sua capacidade de prestar serviço. Os eleitores, portanto, dão seus valiosos votos ao político, pensando que ele prestará valioso serviço à sociedade. O vendedor serve ao freguês, e o artesão serve ao capitalista. O capitalista serve à família, e a família serve ao Estado, caracterizando a eterna posição do ser vivo eterno. Dessa maneira, podemos ver que não há sequer um ser vivo que deixe de prestar serviço a outros seres vivos, e portanto podemos concluir com segurança que o serviço acompanha constantemente o ser vivo e que a prestação de serviço é a religião eterna do ser vivo. 


Todavia, o homem, sob influência do tempo e circunstância particulares, professa pertencer a determinada espécie de fé e com isso alega ser hindu, muçulmano, cristão, budista ou um membro de alguma outra seita. Tais designações não são sanãtanã-dharma. O hindu pode mudar de fé e tornar-se muçulmano; o muçulmano pode mudar de fé para tornar-se hindu; um cristão pode mudar de fé e assim por diante. Mas, em nenhuma dessas circunstâncias, a mudança de fé religiosa afeta a ocupação eterna que consiste em prestar serviço aos outros. Em todas as circunstâncias, o hindu, o muçulmano ou o cristão são servos de alguém. Logo, professar uma determinada espécie de fé não é professar o sanãtanã-dharma. Prestar serviço é sanãtanã-dharma. 

De fato, através do serviço relacionamo-nos com o Senhor Supremo. O Senhor Supremo é o desfrutador Supremo,e nós, entidades vivas, somos seus servos. Somos criados para lhe dar prazer, e se participamos nesse prazer eterno da Suprema Personalidade de Deus, tornamo-nos felizes. Não há outro processo que nos traga felicidade. Não é possível ser feliz independentemente, assim como nenhuma parte do corpo pode ser feliz sem cooperar com o estômago. Não é possível que a entidade viva seja feliz deixando de prestar transcendental serviço amoroso ao Senhor Supremo. 

No Bhagavad-gitã, não se aprova a adoração a diferentes semideuses ou a prestação de serviço a eles. Afirma-se no Sétimo Capítulo, vigésimo verso: ”Aqueles cuja inteligência foi roubada pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses e prestam adoração através de determinadas regras e regulações que se coadunam com suas próprias naturezas.” Aqui, afirma-se com toda a franqueza que aqueles que se deixam levar pela luxúria adoram os semideuses, e não o Supremo Senhor Krishna. Quando mencionamos o nome Krishna, não nos referimos a algum nome sectário. Krishna significa o prazer mais elevado, e confirma-se que o Senhor Supremo é o reservatório ou depósito de todo o prazer. Estamos todos desejando o prazer. Ãnanda-mayo ‘bhyãsãt (vedanta-sutra 1.1.12). Como o Senhor, as entidades vivas são plenas de consciência, e elas estão buscando a felicidade. O senhor é perpetuamente feliz, e se as entidades vivas associam-se com o Senhor, cooperam com Ele e tornam-se Seus companheiros, então elas também se tornam felizes. 


O Senhor desce a este mundo mortal para mostrar os passatempos que Ele executa em Vrndãvana, que são cheios de felicidade. Quando o Senhor Sri Krishna esteve em Vrndãvana, Suas atividades com seus amigos vaqueirinhos, com Suas amigas donzelas, com outros habitantes de Vrndãvana e com as vacas eram todas cheias de felicidade. Toda a população de Vrndãvana só queria saber de Krishna. Mas o Senhor Krishna chegou mesmo a dissuadir Seu pai Nanda Mahãraja de adorar o semideus Indra, porque Ele queria estabelecer o fato de que as pessoas não precisam adorar nenhum semideus. Tudo o que elas precisam é adorar o Senhor Supremo, porque sua meta última é retornar à Sua morada. 


A morada do Senhor Sri Krishna é descrita no Décimo Quinto Capítulo, sexto verso, do Bhagavad-gitã: “Essa Minha morada suprema não é iluminada pelo Sol nem pela Lua, nem pelo fogo nem pela eletrecidade. Aqueles que a alcançam jamais retornam a este mundo material.” 


Este verso dá uma descrição desse céu eterno. É evidente que fazemos a respeito do céu uma concepção material, e ao pensarmos nele levamos em conta o Sol, a Lua, as estrelas e assim por diante, mas neste verso o Senhor declara que no céu eterno não há necessidade de Sol, Lua, eletrecidade ou fogo de espécie alguma porque o céu espiritual já está iluminado pelo brahmajyoti, os raios que emanam do Senhor Supremo. Estamos a duras penas tentando alcançar outros planetas, mas não é difícil compreender a morada do Senhor Supremo. Essa morada chama-se Goloka. No Brahma-samhitã (5.37), ela é belamente descrita: goloka Eva nivasaty akhilãtma-bhutah. O Senhor reside eternamente em Sua morada, Goloka, todavia, Ele é acessível a este mundo, e com este propósito o Senhor manifesta Sua verdadeira forma, sac-cid-ãnanda-vigraha. Quando Ele manifesta essa forma, não precisamos ficar imaginando qual o aspecto com que Ele Se parece. Para desencorajar tal especulação imaginativa, Ele vem e manifesta-Se como Ele é, como Syãmasundara. Infelizmente, os menos inteligentes zombam dEle porque Ele aparece como um de nós e brinca conosco como um ser humano. Mas não é por causa disso que vamos considerar o Senhor como um de nós. É por Sua onipotência que Ele Se apresenta diante de nós em Sua forma verdadeira e manifesta Seus passatempos, que são réplicas dos passatempos executados em Sua morada. 


Nos raios refulgentes do céu espiritual flutuam inumeráveis planetas. O brahmajyoti emana da morada suprema, Krishnaloka, e os planetas ãnanda-maya, cin-maya, que não são materiais, flutuam nesses raios. O Senhor diz: na tad bhãsayate suryo na sasãnko na pãvakah/ yad gatvã na nivartante tad dhãma paramam mama. Aquele que se aproxima desse céu espiritual não precisa descer novamente ao céu material. No céu material, mesmo que nos aproximemos do planeta mais elevado (Brahmaloka), encontraremos as mesmas condições de vida, a saber, nascimento, morte, doença e velhice, que se dizer então, de aproximarmo-nos apenas da Lua ? Nenhum planeta no universo material está livre destes quatro princípios da existência material. 


As entidades vivas estão viajando de um planeta a outro, mas isto não significa que podemos ir a qualquer planeta que quisermos através de meros arranjos mecânicos. Se desejamos ir a outros planetas, há um processo para irmos até lá. Menciona-se também isto: yãnti deva-vratã devãn pitrn yãnti pitr-vratãh. Não é necessário nenhum arranjo mecânico se queremos empreender viagem interplanetária. O Gitã instrui: yãnti deva-vratã devãn. A Lua, o Sol e os planetas superiores são chamados Svargaloka. Há três diferentes categorias de planetas: sistemas planetários superior, intermediário e inferior. A terra pertence ao sistema planetário intermediário. Com uma fórmula muito simples, yãnti deva-vratãh devãn, o Bhagavad-gitã informa-nos como viajar para os sistemas planetários superiores (Devaloka). Tudo o que se precisa é adorar o semideus próprio daquele planeta especifico e então ir à Lua, ao Sol ou a qualquer um dos sistemas planetários superiores. 


Todavia, o Bhagavad-gitã não nos aconselha a irmos a nenhum dos planetas deste mundo material, porque mesmo que, através de alguma espécie de dispositivo mecânico, fôssemos a Brahmaloka, o planeta mais elevado, talvez viajando quarenta mil anos ( e quem viveria tanto ? ), ainda assim encontraríamos as inconveniências materiais sob a forma de nascimento, morte, doença e velhice. Mas quem quiser aproximar-se do planeta supremo, Krishnaloka, ou de qualquer um dos outros planetas existentes dentro do céu espiritual, não encontrará estas inconveniências materiais. Entre todos os planetas do céu espiritual, há um planeta supremo, chamado Goloka Vrndãvana, que é o planeta original, situado na própria morada da Personalidade de Deus original, Sri Krishna. Toda esta informação é fornecida no Bhagavad-gitã, através de cuja instrução recebemos a informação de como deixarmos o mundo material e começarmos no céu espiritual uma vida verdadeiramente bem-aventurada. 


O Décimo Quinto Capítulo do Bhagavad-gitã dá um verdadeiro retrato do mundo material. Lá está dito: O mundo material é descrito como uma árvore cujas raízes ficam para cima e cujos ramos ficam para baixo. Temos experiência de uma árvore cujas raízes ficam para cima: se alguém colocar-se à margem de um rio ou de qualquer reservatório de água, poderá ver que as árvores refletidas na água estão de ponta-cabeça. Os ramos localizam-se embaixo e as raízes ficam na parte de cima. Do mesmo modo, este mundo material é um reflexo do mundo espiritual. O mundo material não passa de uma sombra da realidade. Na sombra, não há realidade nem substancialidade, mas por meio da sombra, podemos compreender que existem substância e realidade. No deserto não há água, mas a miragem sugere a existência da água. No mundo material não há água, não há felicidade, mas a verdadeira água da verdadeira felicidade está no mundo espiritual. 


O Senhor sugere que alcancemos o mundo espiritual (Bg. 15.5): Esse padam avyayam, ou o reino eterno, pode ser alcançado por aquele que é nirmãna-mohã. Que significa isto ? Estamos em busca de designações. Alguém quer se tornar “senhor”, outro quer ser “chefe”, outrem quer ser presidente ou rico ou rei ou alguma outra coisa. Enquanto estivermos apegados a estas designações, estaremos apegados ao corpo. Mas não somos esses corpos, e entender isto é a primeira fase da percepção espiritual. Estamos associados aos três modos da natureza material, mas devemos nos desapegar através do serviço devocional ao Senhor. Se não estamos apegados ao serviço devocional ao senhor, então não podemos desapegar-nos dos modos da natureza material. Designações e apegos devem-se à nossa luxúria e desejo, nossa vontade de assenhorearmo-nos da natureza material. Enquanto não abandonarmos esta propensão de dominar a natureza material, não haverá possibilidade de voltarmos ao reino do Supremo, o sanãtana-dharma. Esse reino eterno, que nunca é destruído, está ao alcance de alguém que, não se deixando confundir pelas atrações dos falsos prazeres materiais, está situado no serviço ao Senhor Supremo. Nessa posição, a pessoa pode facilmente aproximar-se dessa morada suprema. 


Em outra passagem do Gitã (8.21) declara-se: Avyakta significa imanifesto. Nem sequer o mundo material manifesta-se diante de nós em sua totalidade. Nossos sentidos são tão imperfeitos que nem mesmo podemos ver todas as estrelas dentro deste universo material. Na literatura védica, podemos obter muitas informações sobre todos os planetas, nas quais podemos acreditar ou não. Todos os planetas importantes são descritos nos textos védicos, especialmente no Srimad-Bhãgavatam, e o mundo espiritual, que fica além deste céu material, é descrito como avyakta, imanifesto. Todos devem desejar e ambicionar esse reino supremo, pois, quando alcançamos esse reino, não precisamos regressar a este mundo material. 


Alguém talvez pergunte então que é que se deve fazer para alcançar essa morada do Senhor Supremo. A informação referente a isto pode ser encontrada no Oitavo Capítulo, onde se diz: “Todo aquele que em seus instantes finais abandona o corpo lembrando-se de Mim alcança imediatamente Minha natureza; e não há dúvidas quanto a isto.” (Bg. 8.5) Aquele que na hora da morte pensa em Krishna vai ter com Krishna. A pessoa deve procurar lembrar-se da forma de Krishna; se ao abandonar o corpo ela pensa nessa forma, com certeza alcançará o reino espiritual. Mad-bhãvam refere-se à natureza suprema do Ser Supremo. O Ser Supremo é sac-cid-ãnanda-vigraha _ isto é, Sua forma é eterna, plena de conhecimento e bem-aventurança. Nosso corpo atual não é sac-cid-ãnanda. É asat, e não sat. Não é eterno; é perecível. Não é cit, pleno de conhecimento, mas cheio de ignorância. Não conhecemos o reino espiritual, nem mesmo conhecemos perfeitamente este mundo material, onde há tantas coisas de que não temos conhecimento. O corpo é também nirãnanda; ao invés de ser pleno de bem-aventurança, ele é cheio de misérias. Todas as misérias que experimentamos no mundo material surgem do corpo, mas aquele que ao deixar este corpo pensa no Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, obtém imediatamente um corpo sac-cid-ãnanda. 

No mundo material, o processo através do qual se abandona este corpo e consegue-se outro também é organizado. Um homem morre quando foi decidido que forma de corpo terá na próxima vida. Autoridades superiores, e não a própria entidade viva, tomam esta decisão. Conforme as atividades que realizamos nesta vida, subimos ou afundamos. Esta vida é uma preparação para a próxima vida. Se, portanto, pudermos nos preparar nesta vida para promovermo-nos ao reino de Deus, então na certa, após deixarmos este corpo material, obteremos um corpo espiritual parecido com o do Senhor. 

Como já foi explicado,há diversas categorias de transcendentalistas _ o Brahma-vãdi, o paramãtma-vãdi e o devoto _ , e, como foi mencionado, no brahmajyoti (céu espiritual), há inúmeros planetas espirituais. A quantidade desses planetas é muitíssimo maior que o somatório de todos os planetas deste mundo material. Este mundo material equivale a aproximadamente apenas um quarto da criação (ekãmsena sthito jagat). Neste segmento material há milhões e bilhões de universos com trilhões de planetas e sóis, estrelas e luas. Mas toda esta criação é um mero fragmento da criação total. A maior parte da criação está no céu espiritual. Quem deseja fundir-se na existência do Brahman Supremo é transferido imediatamente para o brahmajyoti do Senhor Supremo e assim alcança o céu espiritual. O devoto, que quer gozar da associação do Senhor Supremo, por meio de Suas expansões plenárias como o Nãrãyana de quatro braços e com diferentes nomes, tais como Pradyumna, Aniruddha e Govinda, associa-Se com ele. Portanto, no fim da vida os transcendentalistas pensam no brahmajyoti, no Paramãtmã ou na Suprema Personalidade de Deus Sri Krishna. Em qualquer dos casos, eles entram no céu espiritual, mas só o devoto, ou aquele que está em contato pessoal com o Senhor Supremo, entra nos planetas Vaikunthas ou no planeta Goloka Vrndãvana. Na continuação, o Senhor ainda acrescenta que quanto a isto “não há dúvida”. Deve-se acreditar firmemente nisto. Não devemos rejeitar aquilo que não está de acordo com a nossa imaginação; devemos ter a mesma atitude que foi tomada por Arjuna: “Acredito em tudo o que disseste”. Portanto, quando o Senhor diz que quem, na hora da morte, pensar nEle como Brahman ou Paramãtmã ou a Suprema Personalidade de Deus certamente entrará no céu espiritual, não há dúvida quanto a isto. Fica fora de cogitação não acreditar nisso. 


O Bhagavad-gitã (8.6) também explica o princípio geral que torna possível alguém entrar no reino espiritual pelo simples fato de, na hora da morte, pensar no Supremo: “Qualquer que seja o estado de existência do qual alguém se lembre ao deixar o corpo atual, na sua próxima vida ele alcançarã esse mesmo estado impreterivelmente.” Logo, devemos primeiro entender que a natureza material é a manifestação de uma das energias do Senhor Supremo. No Visnu Purãna (6.7.61) menciona-se as energias totais do Senhor Supremo: O Senhor Supremo tem diversas e inúmeras energias que estão além de nossa concepção; no entanto, grandes sábios eruditos ou almas liberadas estudaram essas energias e dissecaram-nas em três partes. Todas as energias são visnu-sakti, quer dizer, elas são diferentes potências do Senhor Visnu. A primeira energia é parã, transcendental. As entidades vivas também pertencem à energia superior, como já foi explicado. As outras energias, ou energias materiais, estão no modo da ignorância. Na hora da morte, podemos permanecer na energia inferior deste mundo material, ou podemos nos transferir para a energia do mundo espiritual. Assim, o Bhagavad-gitã (8.6) diz: “Qualquer que seja o estado de existência do qual alguém se lembre ao deixar o corpo atual, na sua próxima vida ele alcancará esse mesmo estado impreterivelmente. 


Na vida, estamos acostumados a pensar na energia material ou na energia espiritual. Então, como podemos transferir nossos pensamentos da energia material para a espiritual ? Há tantas publicações que enchem nossos pensamentos de energia material _ jornais, revistas, romances, etc. Nosso pensamento, que agora está absorto nessas publicações, deve transferir-se aos textos védicos, tais como os Purãnas. Os Purãnas não são obras da imaginação; são registros históricos. No Caitanya-caritãmrta (Madhya 20.122), há o seguinte verso: Amnésicas, as entidades vivas ou almas condicionadas esqueceram-se de sua relação com o Senhor Supremo, e estão absortas em pensar em atividades materiais. Só para que elas transfiram ao céu espiritual a sua capacidade de pensar, Krishna-dvaipãyana Vyãsa deixou um grande número de textos védicos. Primeiro, dividiu os Vedas em quatro, depois explicou-os nos Purãnas, e para as pessoas menos capacitadas escreveu o Mahãbhãrata. No Mahãbhãrata encontra-se o Bhagavad-gitã. Então, toda a literatura védica é resumida no vedãnta-sutra, e para orientação futura ele fez um comentário natural sobre o Vedãnta-sutra, chamado Srimad-Bhãgavatam. Devemos sempre ocupar nossas mentes em ler esses textos védicos. Assim como os materialistas ocupam suas mentes em ler jornais, revistas e tantas outras publicações materialistas, devemos transferir nossa leitura para estes textos que nos foram legados por Vyãsadeva; dessa maneira, na hora da morte poderemos lembrar-nos do Senhor Supremo. Este é o único método sugerido pelo Senhor, e Ele garante o resultado: “ Não há dúvida ” . 

“Portanto, Arjuna, deves sempre pensar em Mim sob a forma de Krishna e ao mesmo tempo continuar com teu dever prescrito, que consiste em lutar. Com tuas atividades dedicadas a Mim e com tua mente e inteligência fixas em Mim, não há dúvidas de que Me alcançarás.” (Bg. 8.7) 

Ele não aconselha Arjuna a que simplesmente lembre-se dEle e abandone sua ocupação. Não, o Senhor jamais sugere algo inviável. Neste mundo material, a fim de manter o corpo, deve-se trabalhar. Segundo suas atividades, a sociedade humana tem quatro divisões de ordem social _ brãhmana, ksatriya, vaisya e sudra. A classe brãhmana, ou classe intelectual, trabalha de determinada maneira; a classe ksatriya, ou administrativa, trabalha de outra maneira; e a classe mercantil e os trabalhadores estão todos cuidando de seus deveres específicos. Na sociedade humana, quer alguém seja trabalhador, comerciante, administrador ou fazendeiro, quer pertença à classe mais elevada e seja um literato, cientista ou teólogo, ele tem de subsistir através de seu trabalho. O Senhor, portanto, diz a Arjuna que ele não precisa afastar-se de sua ocupação, mas enquanto está envolvido em sua ocupação, ele deve lembrar-se de Krishna (mam anusmara). Se enquanto luta pela existência ele não adquire a prática de lembrar-se de Krishna, então na hora da morte não lhe será possível lembrar-se de Krishna. O Senhor Caitanya também dá esse mesmo conselho. Ele diz que kirtaniyah sadã harih: todos devem sempre procurar cantar os nomes do Senhor. Os nomes do Senhor e o Senhor não são diferentes. Na plataforma absoluta, não há diferença entre referência e referente. Portanto, temos de adquirir a prática de lembrar-nos sempre do Senhor, vinte e quatro horas por dia, cantando seus nomes e moldando as atividades de nossa vida de modo a podermos sempre lembrar-nos dEle. 

Como é possível isto ? Os ãcãryas dão o seguinte exemplo. Se uma mulher casada é apegada a outro homem, ou se um homem tem apego a uma mulher que não é sua esposa, então o apego deve ser considerado muito forte. Quem tem esse apego vive pensando na pessoa amada. A esposa que pensa em seu amante vive pensando em encontrar-se com ele, mesmo enquanto realiza suas tarefas domésticas. De fato, ela até mesmo executa o trabalho doméstico com muito mais esmero para que seu marido não suspeite de seu apego. Do mesmo modo, devemos sempre lembrar-nos do amante supremo, Sri Krishna, e ao mesmo tempo cumprir muito bem com nossos deveres materiais. Neste caso, é preciso um forte sentimento de amor. Se temos um forte sentimento de amor pelo Senhor Supremo, então podemos desempenhar nosso dever e ao mesmo tempo lembrar-nos dEle. Mas temos de desenvolver este sentimento de amor. Arjuna, por exemplo, vivia pensando em Krishna; ele era o companheiro constante de Krishna, e ao mesmo tempo, um guerreiro. Krishna não o aconselhou a desistir da luta e ir meditar na floresta. Quando o Senhor Krishna descreve para Arjuna o sistema de yoga, Arjuna diz que não lhe é possível praticar esse sistema. 
Arjuna disse: Ó Madhusudana, o sistema de yoga que resumiste parece-me impraticável e inviável, pois a mente é inquieta e instável.” (Bg. 6.33) 

Mas o Senhor diz: “ De todos os yogis, aquele que tem muita fé e sempre se refugia em Mim, pensa em Mim dentro de si mesmo e Me presta transcendental serviço amoroso é o mais intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos. Esta é a Minha opinião.” (Bg. 6.47) Assim, aquele que sempre pensa no Senhor Supremo é ao mesmo tempo o maior yogi, o jnãni supremo e o maior devoto. Continuando, o Senhor diz a Arjuna que, como ksatriya ele não pode deixar de lutar, mas se enquanto luta Arjuna lembrar-se de Krishna, então na hora da morte ele será capaz de lembrar-se de Krishna. Mas a pessoa deve ser inteiramente rendida ao transcendental serviço amoroso ao Senhor. 

Na verdade, não trabalhamos com nosso corpo, mas com nossa mente e inteligência. Logo, se a inteligência e a mente estão sempre ocupadas em pensar no Senhor Supremo, então os sentidos também vão ocupar-se em Seu serviço. Pelo menos superficialmente, as atividades dos sentidos permanecem as mesmas, mas a consciência muda. O Bhagavad-gitã nos ensina o processo pelo qual a mente e a inteligência ficam absortas em pensar no senhor. Tal absorção nos capacitará a transferir-nos para o reino do Senhor. Se a mente está ocupada a serviço de Krishna, então os sentidos estão também ocupados em Seu serviço. Isto é uma arte, e este é também o segredo do Bhagavad-gitã: absorção total em pensar em Sri Krishna. 

O homem moderno lutou mui arduamente para alcançar a Lua, mas não envidou muitos esforços para elevar-se espiritualmente. Se uma pessoa tem cinquenta anos de vida pela frente, deve aproveitar esse pequeno intervalo de tempo para cultivar está prática de lembrar-se da Suprema Personalidade de Deus. Esta. Prática é o processo devocional: Esses nove processos, dos quais o mais fácil é sravanam, ouvir a pessoa realizada transmitir o Bhagavad-gitã, induzirão alguém a pensar no Ser Supremo. Isto o levará a lembrar-se do Senhor Supremo e, ao abandonar o corpo, estará em condições de obter um corpo espiritual com o qual possa associar-se devidamente com o Senhor Supremo. 
(Srimad-Bhãgavatam 7.5.23) 

Continuando, o Senhor Diz: “Aquele que, meditando em Mim como a Suprema Personalidade de Deus, sempre ocupa tua mente em lembrar-se de Mim e não se desvia do caminho, ó Arjuna, com certeza Me alcança.” (Bg. 8.8) 

Este processo não é muito difícil. Entretanto, deve-se aprende-lo com uma pessoa experiente. Tad-vijnãnãrtham sa gurum evãbhigacchet: devemos aproximar-nos de alguém que já tenha prática. A mente está sempre voando para cá e para lá, mas deve-se ficar prático em sempre concentrar a mente na forma do Senhor Supremo, Sri Krishna, ou no som do Seu nome. Por natureza, a mente é inquieta, indo de cá para lá, mas ela pode fixar-se na vibração sonora Krishna. Portanto, todos devem meditar no paramam purusam, a Suprema Personalidade de Deus que está no reino espiritual, o céu espiritual, e assim alcança-lO. Os meios e os métodos para alguém atingir compreensão última, são delineados no Bhagavad-gitã, e as portas deste conhecimento estão abertas a todos. Ninguém está excluído. Todas as classes de pessoas podem aproximar-se do Senhor Krishna pensando nEle, pois ouvir e pensar sobre Ele é possível a todos. 

O Senhor continua dizendo: Mesmo um comerciante, uma mulher degradada ou um trabalhador ou até mesmo seres humanos no estado de vida mais baixa podem alcançar o Supremo. Não é preciso inteligência altamente desenvolvida. O fato é que qualquer um que acate o princípio de bhakti-yoga e aceite o Senhor Supremo como o summum bonum da vida, como o objetivo máximo, a meta última, pode aproximar-se do Senhor no céu espiritual. Se a pessoa adota os princípios enunciados no Bhagavad-gitã, ela pode tornar sua vida perfeita e resolver definitivamente todos os problemas da vida. Esta é a essência de todo o Bhagavad-gitã. (Bg. 9.32-33) 

Em conclusão, o Bhagavad-gitã é um livro transcendental que se deve ler com muita atenção. Gitã-sãstram idam punyam yah pathet prayatah pumãn: quem segue corretamente as instruções do Bhagavad-gitã pode se livrar de todas as misérias e ansiedades existentes na vida. Bhaya-sokãdi-varjitah. Ele se libertará de todos os temores nesta vida, e sua vida seguinte será espiritual. (Gitã-mãhãtmya 1) 

Há também outra vantagem: “Se alguém lê o Bhagavad-gitã mui sinceramente e com toda a seriedade, então, pela graça do Senhor, as reações de seus malefícios passados não agirão sobre ele.” (Gitã-mãhãtmya 2) O Senhor proclama na última parte do Bhagavad-gitã (18.66): “Abandona todas as variedades de religião e simplismente rende-te a Mim. Eu te libertarei de todas as reações pecaminosas. Não temas.” Assim, o Senhor assume toda a responsabilidade por aquele que se rende a Ele, e Ele exime esta pessoa de todas as reações dos pecados. 

“Alguém pode ficar limpo tomando um banho diário, mas se ao menos uma vez ele toma um banho na água do sagrado Ganges do Bhagavad-gitã, para ele a sujeira da vida material extingue-se por completo.” (Gitã mãhãtmya 3) 

Como o Bhagavad-gitã é falado pela Suprema Personalidade de Deus, não é preciso ler nenhum outro texto védico. Precisa-se apenas ouvir e ler atenta e regularmente o Bhagavad-gitã. Na era atual, as pessoas vivem tão absortas em atividades mundanas que não lhes é possível ler todos os textos védicos. Mas isto não é necessário. Este único livro, o Bhagavad-gitã, bastará, porque ele é a essência de todos os textos védicos e especialmente porque é falado pela Suprema Personalidade de Deus. (Gitã-mãhãtmya 4) 

Como está dito: “Se aquele que bebe a água do Ganges obtém a salvação, então, Que se dizer daquele que bebe o néctar do Bhagavad-gitã ? O Bhagavad-gitã é o néctar mais refinado do Mahãbhãrata, e é falado pelo próprio Senhor Krishna, o Visnu original.” (Gitã-mãhãtmya 5) O Bhagavad-gitã provém da boca da Suprema Personalidade de Deus, e afirma-se que o Ganges emana dos pés de lótus do Senhor. É obvio que não há diferença entre a boca e os pés do Senhor Supremo, porém, através de um estudo imparcial, podemos ver que o Bhagavad-gitã é até mesmo mais importante que a água do Ganges. 

“Este Gitopanisad, o Bhagavad-gitã, a essência de todos os Upanisads, é tal qual uma vaca, e o Senhor Krishna, que é famoso como vaqueirinho, está ordenhando essa vaca. Arjuna é como um bezerro, e aos estudiosos eruditos e devotos puros recomenda-se-lhes beber o leite nectário do Bhagavad-gitã.” (Gitã-mãhãtmya 6) 

Hoje em dia, as pessoas estão muito desejosas de ter uma só escritura, um só Deus, uma só religião e uma só ocupação. Portanto, ekam sãstram devaki-putra-gitam: que haja uma única escritura, uma escritura que sirva para o mundo todo _ o Bhagavad-gitã. Eko devo devaki-putra eva: que haja um só Deus para o mundo inteiro _ Sri Krishna. Eko mantras tasya nãmãni: e um hino, um mantra, uma oração _ o canto do Seu nome: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare. Karmãpy ekam tasya devasya sevã: e que haja apenas uma atividade _ o serviço à Suprema Personalidade de Deus. (Gitã-mãhãtmya 7) 

A SUCESSÃO DISCIPULAR 

Evam paramparã-prãptam imam rãjarsayo viduh (Bhagavad-gitã 4.2). Este O Bhagavad-gitã Como Ele É é recebido através desta sucessão discipular: 

1. Krishna 
2. Brahma 
3. Nãrada 
4. Vyãsa 
5. Madhva 
6. Padmanãbha 
7. Nrhari 
8. Mãdhava 
9. Aksobhya 
10. Jaya Tirtha 
11. Jnãnasindhu 
12. Dayãnidhi 
13. Vidyãnidhi 
14. Rãjendra 
15. Jayadharma 
16. Purusottama 
17. Brahmanya Tirtha Prabhupãda 
18. Vyãsa Tirtha 
19. Laksmipati 
20. Mãdhavendra Puri 
21. Isvara Puri, (Nityãnanda 
22. Senhor Caitanya 
23. Rupa, (Svarupa, Sanãtana) 
24. Raghunãtha, Jiva 
25. Krishnadãsa 
26. Narottama 
27. Visvanãtha 
28. (Baladeva), Jagannãtha 
29. Bhaktivinoda 
30. Gaurakisora 
31. Bhaktisiddhãnta Sarasvati 
32. A. C. Bhaktivedanta Swami 



OS CRÍTICOS ELOGIAM O BHAGAVAD-GITÃ COMO ELE É


De maneira notável, o Bhagavad-gita, um dos mais conhecidos textos filosóficos do mundo, narra um evento dramático ocorrido num campo de batalha da Índia antiga. Momentos antes de entrar em combate, o guerreiro Arjuna começa a se perguntar sobre o verdadeiro sentido da vida. As questões levantadas por Arjuna neste texto intemporal têm surpreendente importância para nosso mundo moderno. A possibilidade de aplicação universal das idéias contidas no Bhagavad-gita tornam-no de fato um clássico da literatura universal. Durante milhares de anos, este famoso livro tem atraído a mente dos grandes intelectuais do Oriente e do Ocidente, como Thoreau, Emerson, Einstein, Gandhi, Huxley e outros. O comentário lúcido de Srila Prabhupada proporciona a todos os leitores acesso fácil a este clássico antigo e claro entendimento dele. A venda de mais de 14 milhões de exemplares em 50 línguas é prova óbvia da extrema popularidade e valor desta edição.


“Gostaríamos de dar as boas-vindas a esta nova edição do Bhagavad-gitã apresentada por Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, com a tradução para o português e o texto original em sânscrito. Esta edição deste clássico intemporal há de mostrar ser muito útil para pôr o público brasileiro ao corrente das tradições filosóficas e religiosas da Índia milenar. A apresentação do texto em devanagari, da transliteração romana, da tradução para o português e de uma breve exegese* _ proporciona os instrumentos necessários para um estudo sério tanto para o especialista quanto para o leigo principiante.

Este volume autêntico haverá de encontrar um lugar adequado em nossas bibliotecas e institutos, como também proporcionará um insight para as pessoas seriamente curiosas a respeito do conhecimento e da cultura espirituais da Índia.”

Jorge Bertolaso Stella Professor Emérito de História das religiões
Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil
Primeiro sanscritista do Brasil



“Duas são as principais razões que nos levam a recomendar a tradução comentada do Bhagavad-gitã de A. C. Bhaktivedanta Swami, agora existente também em português. Em primeiro lugar, trata-se de um trabalho de autoria de um representante autorizado de uma importante corrente do hinduísmo, a escola devocional (bhakti) de Caitanya, um dos movimentos que inspiraram a formação do moderno nacionalismo indiano. Em segundo lugar, cabe destacar a preocupação didática que levou o organizador da obra a colocar o texto em sânscrito*, tanto em alfabeto devanagari quanto em transliteração românica, acompanhado de vocabulário e tradução. Isso faz do livro um excelente instrumento de trabalho para os que desejam estudar o sânscrito, utilizável mesmo como livro didático em cursos universitários.”

Ricardo Mário Gonçalves Prof. Livre-docente
História Oriental da Universidade de São Paulo



“No Bhagavad-gitã, o verbo divino _ Krishna _ nos ensina, nos guia e impulsiona na permanente batalha que nos levará do conflito à paz, das trevas à luz, da dor à plenitude. Os brasileiros têm um dívida para com o Swami Prabhupada por lhes dar acesso ao Bhagavad-gitã Como Ele É, numa rica interpretação devocional, na luz de Krishna Caitanya. Ler é pouco. Meditando sobre a divina mensagem e vivendo-a no dia-a-dia, é que podemos superar e transcender.”
Professor José Hermógenes de Andrade
Eminente autoridade sobre Yoga - Brasil



“Há pouca dúvida quanto a ser esta edição um dos melhores livros disponíveis sobre o Gitã e sobre devoção. A Tradução de Prabhupada é uma combinação ideal de precisão literal com dicernimento religioso.”
Dr. Thomas J. Hopkins
Presidente de estudos Religiosos
Franklin e Marshall College



“Podemos ver o Gitã como o principal suporte literário para a grande civilização religiosa da Índia, a mais antiga cultura que sobrevive no mundo... Esta tradução e comentário é outra manifestação da permanente importância viva do Gitã. Swami Bhaktivedanta traz para o Ocidente um lembrete salutar de que nossa cultura unilateral e extremamente ativista enfrenta uma crise que pode terminar em autodestruição por lhe faltar a profundidade interior de uma consciência metafísica autêntica. Sem tal profundidade, nossos protestos morais e políticos não passam de verbosidade.”
Teólogo Thomas Merton
monge e autor católico



“Nesta bela tradução, Srila Prabhupada captou o profundo espírito devocional do Gitã e deu ao texto um comentário elaborado segundo a verdadeira e autêntica tradição de Sri Krishna Caitanya, um dos mais importantes e influentes santos da Índia.”
Dr. J. Stillson Judah
Professor Emérito de História das Religiões
Diretor da Biblioteca Graduate Theological Union, Berkeley



“Se verdade é o que funciona, como insistem Pierce e os pragmatistas, deve existir uma espécie de verdade n’O Bhagavad-gitã Como Ele É, pois aqueles que seguem seus ensinamentos exibem uma jubilosa serenidade que em geral falta na vida desolada e árida do homem contemporâneo.”

Dr. Elwin H. Powell
Professor de Sociologia
Universidade do Estado de Nova Iorque



“Quer o leitor seja um adepto da espiritualidade indiana, quer não, uma leitura d’O Bhagavad-gitã Como Ele É será de extremo proveito, pois lhe permitirá compreender o Gitã como ainda hoje o faz a maioria dos hindus. Para muitos, este será o primeiro contato com a verdadeira Índia, a antiga Índia, a eterna Índia.”

Dr. François Chenique
Doutor em Ciências Religiosas
Instituto de Estudos Políticos, Paris


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